agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
Blogs Ana Magnani Pedagoga, bonequeira, investigadora das artes manuais; Mestranda no PPG em Educação Sexual Unesp - FCLAr; AKOMA - Grupo de Estudos em Africanidades, Memórias, Diversidade & Culturas
FALE COM O COLUNISTA:

Educando meninos: o poder das palavras

"A educação da masculinidade de meninos pode ser extremamente tóxica quando se torna repressiva, reproduzindo violências contra seus sentimentos"
Postado em: 07/05/2020 às 18:13
Autor: Ana Magnani

Como se dá existência a um menino?

Tenho que ser franca, esse questionamento nunca havia me passado pela cabeça. Esquecemos que um menino é produzido através do contato com outras pessoas, primeiro no interior de uma família, depois na interação com a sociedade como um todo.  Ele nasce como um corpo biológico que precisa ser humanizado. Aprender a falar, se comportar, aprender valores e normas sociais.

E, muitas vezes, esquecemos tudo isso. E, principalmente, como esse, pode ser um processo doloroso.

É claro que entendo que não posso falar como um menino se sente, afinal sou uma menina e, de muitas formas, nossas experiências educativas e a forma como passamos por elas são diferentes. Porém, podemos conversar sobre as expectativas e questionamentos que mães que estão educando meninos tem. São várias perguntas, cercadas de inseguranças, que passam por nossa cabeça.

Penso que tudo pode ficar mais fácil se começarmos por essa pergunta: que tipo de menino pretendemos educar?

Ela nos dá a direção de como podemos pensar em educá-lo.

Primeiro, acho importante falarmos sobre as palavras que dizemos aos nossos meninos, quando os estamos educando, e também, as palavras que deixamos de falar, palavras que silenciamos.

Muitas vezes, nossas falas reproduzem ideias pré-concebidas do que é “ser homem”. Ideias preconceituosas, brutas, endurecidas. As palavras saem de nossas bocas em momentos de stress e cansaço. “Homem não chora!” é um bom exemplo. Uma frase comumente usada para fazer com que meninos parem de chorar. Mas, essa afirmação pode ainda ser pior se for acompanhada por outra frase: “Quer que pensem que você é uma mulherzinha?”

Vamos pensar juntos, se nosso filho chorar, ele deixa de ser um indivíduo do sexo masculino?

Quando falamos essas palavras deixamos de perceber o sentido contido nelas, de que homem não pode expressar seus sentimentos. É isso que você quer para seu filho? Que ele aprenda desde pequeno a engolir seu choro, endurecendo seus sentimentos?

Quando reproduzimos essas antigas falas, estamos educando nossos filhos, sem pensar no sentido implícito nelas. E, pior, sem pensar no impacto que essas falas causarão no futuro de nossos filhos. Nas inseguranças que produzirão, nas dores que causarão, nos medos... Medo de não ser aceito. Medo de não ser bom o bastante. Medo de, caso não consiga reter seu choro, ser julgado menos homem por isso.

Dessa forma, estamos dando existência a homens mais endurecidos, mais violentos. Homens que não sabem expressar seus sentimentos.

A educação da masculinidade de meninos pode ser extremamente tóxica quando se torna repressiva, reproduzindo violências contra seus sentimentos. Como se manifestar sentimentos fosse uma fraqueza, que não cabe em um ideal de masculinidade no qual a força assume um sentido de absoluto, de completude. Se você não for forte, no sentido de sem sentimentos, você não estará completo.

Outra palavra muito utilizada na educação de meninos é “frescura”. Palavra essa associada ao imaginário de sentimentalismo, covardia ou delicadeza. Traços esses depreciativos para um homem pois estão associados a feminilidade. Mas, será que isso realmente é verdade? Se um menino tiver gestos educados, gentis, ele é menos homem por isso?

Você já tinha se dado conta de como pode ser complexo educar um menino?

A força não é tudo e a competitividade não pode ser a forma como o menino vai ser avaliado. Meninos podem e devem ser sensíveis, afetuosos, carinhosos.

Dependendo da forma como educamos nossos meninos podemos desde muito cedo conduzi-los a um estado de negação da doçura que é inerente a toda criança. Podemos estar autorizando, mesmo que inconscientemente, praticas agressivas, tais como brigas entre meninos. Damos nossa autorização através do nosso discurso quando dizemos que: “Meninos são assim mesmo”. 

Se desde muito cedo autorizamos nossos meninos a “se defender” brigando e batendo nos amiguinhos, já que existe a naturalização da briga como defesa e como única atitude aceitável a ser tomada por meninos e vibramos quando ele sai vencedor, damos permissão para toda agressividade e violência que ele venha manifestar, mais tarde, como adulto.

Enfim, penso que para educar meninos, precisamos repensar a forma como entendemos o que é ser homem, porque se não fizermos essa reflexão continuaremos a reproduzir e a ensinar nossos meninos, coisas que nos foram naturalizadas de forma muito sutil desde muito cedo.

Relacionadas

Ana Magnani
Experiências brincantes
27/07/2020 às 13:05
Ana Magnani
Deixar a criança crescer
27/11/2019 às 16:23

Blogs e colunas

Maria Isabel  Escarmin
Maria Isabel Escarmin
Uma nota sobre a solidão
02/10/2017
Guilherme  Quintão
Guilherme Quintão
O terceiro turno de Bolsonaro
30/10/2018
Matheus  Santos
Matheus Santos
Deixo aqui um até breve
10/08/2020
Cristiane Tarcinalli  Moretto Raquieli
Cristiane Tarcinalli Moretto Raquieli
Apoiar, acolher e integrar
18/07/2017
Adalberto Cunha
Adalberto Cunha
O uso do plástico na sociedade atual
22/12/2017
Vaine Luiz Barreira
Vaine Luiz Barreira
Meltdown e Spectre
08/01/2018
Rodrigo Viana
Rodrigo Viana
Ignácio, o imortal
15/03/2019
Marcelo  Bonholi
Marcelo Bonholi
A matemática do medo
30/04/2020