agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
Blogs Guilherme Quintão Cientista político e diplomata de carreira
FALE COM O COLUNISTA:

Entre o "Centro” e o “Centrão”: qual a alternativa que queremos?

"No Brasil, o "centrão" não apenas não ameaça a dicotomia PT-PSDB como também a reforça e dela se abastece"
Postado em: 19/06/2017 às 09:52
Autor: Guilherme Quintão

O partido do recém-eleito presidente da França, Emmanuel Macron, garantiu, neste último domingo (18), maioria absoluta na Assembleia Nacional francesa nos próximos cinco anos. O surpreendente triunfo da nova sigla centrista, intitulada "La République en Marche !" (LREM), reverterá a bipolaridade direita-esquerda, predominante na política francesa há mais de meio século.

Apesar da abstenção recorde no pleito parlamentar e do pessimismo dos franceses diante da política, analistas e entusiastas da LREM afirmam que a ascensão do novo partido não constitui simples surgimento de uma nova sigla com velhos caciques. Argumentam que grande parte dos candidatos da LREM disputa uma eleição pela primeira vez e portam uma mensagem classificada como “social-liberalismo”, pretensamente liberal na economia, mas atento às questões sociais. Macron terá um governo “para chamar de seu”, sem a necessidade de coalizões, o que aumenta sua responsabilidade na execução de seu projeto político.

Ao contrário do caso francês e da avaliação de alguns especialistas brasileiros, o Brasil pós-1988 nunca esteve próximo do bipartidarismo. Tampouco contou com alguma força política expressiva de "centro". Seu sistema político sempre se fiou no chamado "centrão", em tudo diferente do "centro", que agora ganha força na França. Explico.

O “centrão” nada mais é do que um acúmulo de partidos que se sustentam, principalmente, no apoio do prefeito, do vereador, do líder comunitário, do padre, do fazendeiro, do pequeno empresário e de todos aqueles capazes de influenciar o voto em pequenas bases territoriais. Por sua natureza local, esses partidos dificilmente são bem-sucedidos em eleições majoritárias que envolvam número de eleitores em grande escala, como no nível federal. Sua força está no apoio de pequenas localidades, que será revertido, no frigir dos ovos, em um peso maior no Congresso Nacional.

É no Parlamento que o "centrão" se abastece. Com sua legitimidade residindo nos municípios, o objetivo permanente desse bloco congressista é canalizar verbas federais, onde está concentrado o grosso da arrecadação tributária, para suas bases eleitorais. A lógica é simples e não envolve qualquer ideologia: estar sempre ao lado de quem, temporariamente, encontra-se no poder, munido da caneta que libera emendas parlamentares e que define quem ocupará os cargos que movimentam mais recursos públicos. O sistema, fatalmente, esbarrará no fisiologismo. E os municípios, que dependem de repasses em sua imensa maioria, agradecerão pela proatividade de seu parlamentar.

Todos os partidos brasileiros têm um quê de "centrão", alguns mais e outros menos, e isso é resultado de disfunções profundas da nossa organização política, que deixo para explorar em outra oportunidade (uma delas é o nosso confuso sistema federativo, que deixou os municípios às mínguas).

É certo que partidos como o PT e o PSDB se dispuseram a disputar o poder em nível nacional, aceitando o desafio de tirar um pé do "centrão" e entrando no universo do embate ideológico (e às vezes sectário, infelizmente). Apesar disso, também é verdade que esses dois partidos sempre dependeram do "centrão profundo" para governar, em função do grande peso deste no Congresso. Não por acaso, o PMDB, que historicamente compõe o bloco, tem o maior número de prefeitos e de deputados do País: na lógica do "centrão", prefeitos e deputados andam juntos.

Mas é bom que se esclareçam dois pontos. Primeiro: no atual modelo político e federativo brasileiro, o "centrão" sempre existirá como grande força parlamentar, seja encarnado no PMDB ou em qualquer outro partido. Segundo: por não ter grande apego a ideologias e por buscar sua legitimidade na resolução de questões locais, o "centrão" não disputa espaço com a esquerda e a direita (o fato de, mesmo assim, ser a maior força política do Brasil o torna provavelmente fenômeno único no mundo).

Dito isso, é possível entender por que o Brasil, paradoxalmente, não é bipartidário, mas também não conta com um "centro" no sentido ideológico, do tipo que emerge na França. Macron e seu "social-liberalismo" podem realmente alterar o cenário político francês e ameaçar o predomínio da direita e da esquerda. Seu projeto, pelo fato de oferecer uma alternativa ao país – ao menos no discurso –, disputa espaço político com os partidos tradicionais franceses, inclusive como força parlamentar independente.

No Brasil, ao contrário, o "centrão" não apenas não ameaça a dicotomia PT-PSDB como também a reforça e dela se abastece, na medida em que petistas e tucanos aceitam a agenda "localista" em prol da governabilidade.

Uma terceira via moderada está longe de ser realidade, provavelmente porque os cidadãos já entenderam que, seja qual for ela, também beberá das águas do fisiologismo. A disputa entre reais projetos de País está confusa. A reforma política deve ser acompanhada por uma reforma federativa e tributária que aumente a capacidade de auto-gestão dos municípios e diminua sua dependência da União e dos estados. Sem ações profundas, veremos candidatos com discursos simplistas, de negação da política, ganharem projeção nas eleições de 2018. Não é essa a alternativa que queremos.

 

(As opiniões aqui expressas não necessariamente refletem a posição do Governo brasileiro)

Relacionadas

Guilherme Quintão
O terceiro turno de Bolsonaro
30/10/2018 às 08:59
Guilherme Quintão
Petistas, tucanos e o fator Bolsonaro
28/11/2017 às 15:27
Guilherme Quintão
O impasse brasileiro e seu prolongamento
17/08/2017 às 16:19

Blogs e colunas