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Blogs Hugo Saulino Biólogo formado pela Universidade de Araraquara com mestrado e doutorado em Ecologia pelo programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais – UFSCar, São Carlos
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Quando espécies introduzidas se tornam vilãs da restauração ambiental
Postado em: 24/05/2017 às 17:14
Autor: Hugo Saulino

Os exemplos de tipos de interferência que causam impactos negativos sobre a biodiversidade são incontáveis. Entre os principais, destaca-se o desmatamento de florestas nativas.

A atuação no corte de madeira se deve principalmente das atividades de construção civil, como também, na expansão de áreas agrícolas e urbanas. Com relação a isso, o Estado de São Paulo, considerado o mais populoso do país, é também, o que apresenta as maiores extensões de áreas verdes naturais desmatadas.

Devido a esta problemática, projetos de incentivo à restauração da vegetação nativa foram desenvolvidos ao longo das ultimas décadas. No entanto, o trabalho de restaurar a vegetação nativa se tornou um grande desafio em razão de ter de se superar um grande obstáculo: encontrar as sementes das espécies vegetais nativas pertencentes aos respectivos biomas e suas variações.

O bioma Mata Atlântica, no qual o Estado de São Paulo se enquadra dentro de seus domínios, é um dos mais ricos em diversidade devido as suas diferentes formações florestais. Este pode variar desde florestas como, por exemplo, formações densas em regiões mais úmidas, conhecida como formação Ombrófila, às regiões mais secas e com estações bem definidas, conhecidas como formação Estacional Semidecidual.

A respeito desta última, seu domínio se estende à região central do estado, onde se encontra a cidade de Araraquara. Nesta formação, também é possível já se distinguir, uma are de transição com o bioma Cerrado, considerado a maior savana do continente americano.  Devido as grandes alterações causadas pela expansão agrícola e urbana, a extinção de espécies endêmicas, aquelas que ocorrem exclusivamente em determinadas regiões, foi inevitável.

Como então restaurar a formação de novas áreas florestadas a fim de que os recursos naturais como disponibilidade de água e conservação da fauna silvestre possa ser estabelecida?

A solução foi buscar introduzir espécies nativas, no entanto, não endêmicas. Acontece que além dessas, algumas iniciativas exploraram a introdução de espécies exóticas, provenientes de outros países. Um exemplo disso é o caso da espécie Leucena (Leucaena leucocephala), originária da América Central. Esta espécie de árvore foi introduzida para a utilização de produção de forrageira para gados. Devido a sua fácil adaptação e rápido crescimento, a Leucena tem sido utilizada em reflorestamentos de áreas de mata ciliares de diversas cidades do Estado de São Paulo.

O que mais me estranha, e talvez também para muitos ambientalistas, é saber como o uso de determinada espécie foi aprovada. Nosso código florestal não prevê a utilização dessas determinadas espécies para serem implantadas em áreas de proteção permanentes (APPs).

Uma vez que informações a respeito do uso dessa espécie para reflorestar áreas degradadas são escassas (eu mesmo não encontrei fontes), elaboro aqui algumas considerações que poderiam explicar a sua escolha para a restauração dessas áreas degradadas.

1) Considerando seu rápido crescimento baixo custo de produção de mudas, a Leucena promoveria rápida proteção para o solo, conseguindo assim, deter os processos de erosão.

2) Por ser uma espécie arbórea primária (que necessita de grande quantidade de luz solar para se desenvolver), esta proporcionaria condições favoráveis para as espécies secundárias (que crescem sob a sombra dos  sub-bosques). No primeiro texto do blog, comentei um pouco a respeito dos impactos das espécies invasoras. Nesse caso, citei o javali (leia aqui).

Assim como a espécie de porco selvagem, a Leucena apresenta estratégia de competição agressiva, sobressaindo-se melhor às espécies de árvores nativas. No entanto, aquela que se imaginaria resolver um problema, se tornou uma grande vilã da restauração das matas ciliares em todo o Estado de São Paulo. Da mesma forma que a Leucena, a espécie proveniente do domínio de áreas mais úmidas da Mata Atlantica, como por exemplo, o guapuruvú (Schizolobium parahyba), tem causado o mesmo problema, pois apresenta as mesmas características de competição por recursos. E a lista de espécies vegetais exóticas não para por ai. Já observei em diversas áreas de matas ciliares urbanas, o urucuzeiro (Bixa sp), que produz o urucum. Esta ultima, é proveniente da região amazônica. Os resultados dessas iniciativas não foram positivos.

Assim como em Araraquara, diversos municípios do Estado de São Paulo (ex. Campinas e Sorocaba), as matas ciliares são verdes, as margens dos córregos e rios parecem intactas e protegidas. Aos olhos de gestores e de auditores de certificações ambientais, o cenário parece favorável e o problema resolvido. No entanto, em se tratando de biodiversidade, esta se iguala quase a zero. Nossas matas ciliares urbanas se assemelham a desertos verdes. É triste de ver que, quase observamos poucas variedades de espécies de pássaros. Afinal, os frutos de tais espécies de árvores introduzidas não são atrativos para uma variada comunidade faunística.

Outro problema, que também envolve esta questão ambiental, é a alta demanda de recursos financeiros para se realizar o controle dessas espécies invasoras. As mesmas se tornaram pragas, e geram baixa diversidade em ambientes tão importantes para a manutenção da biodiversidade. As matas ciliares desempenham importante papel como corredores ecológicos, possibilitando a transição da fauna entre os fragmentos florestais. Não tenho informações da secretaria de meio ambiente de Araraquara, para saber a respeito dos planos de manejo das áreas reflorestadas com tais espécies. Pelo menos, sei de alguns municípios que têm reunidos esforços e investimentos para dissemina-las, e investir novamente na restauração florestal com uso de espécies nativas regionais. Espero receber respostas animadoras, para assim, escrever um novo “post” para a página.

Enquanto isso, ressalto que devemos colocar em pratica nossos deveres de cidadãos, questionando os órgãos públicos competentes a esta atividade. Para isso, iniciemos com a obtenção do conhecimento sobre nossa fauna e flora nativa. Assim poderemos atuar de forma mais eficiente, contribuindo com os nossos questionamentos e influenciando nas tomadas de decisão de gestão dos recursos naturais de nossa cidade. Espero através deste texto, que você leitor, possa ter obtido pelo menos uma curiosidade de saber quais são estas espécies. Assim, ao transitar pela cidade, e observar bem, logo constatará dos problemas que descrevi aqui.

Espero que este texto possa ter ajudado a despertar o seu olhar para o ambiente em que vivemos, e unidos possamos melhorar essa situação.

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