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Blogs Hugo Saulino Biólogo formado pela Universidade de Araraquara com mestrado e doutorado em Ecologia pelo programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais – UFSCar, São Carlos
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Pulverização aérea de agrotóxicos

Debatida em audiência pública, essa prática traz silenciosas consequências na vida dos pequenos produtores rurais
Postado em: 29/06/2017 às 07:36
Autor: Hugo Saulino
Pulverização aérea de agrotóxicos
Imagem ilustrativa

Durante o mês de junho, entidades públicas e privadas recordam o dia internacional do meio ambiente, onde ressaltam a importância da preservação ambiental através do uso consciente dos recursos naturais. Assuntos relacionados ao consumo de água, poluição de rios e lixo geralmente dominam os principais tópicos explorados nos programas de conscientização ambiental. Entretanto, outras problemáticas ambientais, como as questões relacionadas às más atuações industriais e agrícolas, que também afetam a qualidade ambiental, são geralmente esquecidas.

No dia 19 de maio, a Câmara Municipal de Araraquara realizou uma audiência pública para discutir um problema causado pela contaminação de pulverização aérea de agrotóxicos em áreas de agricultura familiar do município. A sessão presidida pelo vereador Édio Lopes contou com a presença de várias entidades, como representantes das usinas canavieiras, sindicatos das empresas de aviação agrícola, pesquisadores da UFSCar, coordenadoria de agricultura de Araraquara e comunidade de agricultores familiares (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2QXOSHMyHfo). A principal queixa dos pequenos agricultores é de que a prática de pulverização aérea de agrotóxicos, além de contaminar a produção de alimentos orgânicos e  inviabilizar suas produções de alimentos, coloca também em risco a qualidade da saúde das populações rurais que vivem próximos às áreas latifundiárias canavieiras. A perda de produção de alimentos, bem como o forte cheiro dos produtos lançados pelas aeronaves, gera preocupação quanto às influências na saúde das comunidades rurais e da população em geral.

 A explanação da professora Drª Silvia Iasulaitis, da UFSCar, a respeito dos danos causados pelos agrotóxicos na saúde da população é alarmante. Além disso, Drª Silvia Iasulaitis destacou que no Brasil é comum na atividade agrícola o uso produtos alto impacto e que já foram erradicados nos países europeus e da América do Norte. Entre os principais casos estudados pela equipe de pesquisa de agroecologia está o alto índice de abortos espontâneos que ocorrem nas mulheres nessas comunidades rurais. A exposição aos produtos agrícolas poderia ser uma das principais causas que são investigadas nesses casos. Não é de hoje que se estudam casos por contaminação de uso de agrotóxicos.  Logo no início de sua explanação ao público, a professora doutora  usou como exemplo a primeira obra literária que aborda o tema: o livro “Primavera Silenciosa”, escrito pela bióloga norte-americana Rachel Louise Carlson, em 1962. Além de casos de abortos espontâneos, a contaminação por agrotóxicos também pode causar doenças, como câncer, má formação fetal e distúrbios neurológicos. Tais doenças podem também estar associadas ao consumo de alimentos.

Cada dia que passa, percebemos que o nosso ritmo acelerado de viver tem nos distanciado dos cuidados básicos de nossas vidas, e um deles é da qualidade de alimento que consumimos. Com relação à problemática discutida nessa audiência pública, acredito que os possíveis impactos causados pela atividade de pulverização de agrotóxicos das áreas canavieiras na qualidade de vida dos moradores rurais vizinhos nos afetam diretamente, já que estes  alimentos chegam até nossas mesas.

Embora a explanação de um representante do Sindicato de Empresas de Aviação venha informar que essas atividades são regulamentadas, os impactos causados pela pulverização dificilmente poderiam ser totalmente controlados. Isso se explicaria devido à atuação de agentes secundários, como por exemplo a direção e velocidade dos ventos e da temperatura do ar que facilitam a dispersão dos contaminantes. Interessante observar que pouco se divulga a respeito dessa problemática. Há não muito tempo, as queimadas de cana-de-açúcar foram erradicadas devido aos problemas causados à saúde das populações onde as indústrias canavieiras atuam. Acredito que todos se mobilizaram em querer resolver essa problemática porque existia um fator visível a todos, as cinzas que chegavam as nossas casas. No entanto, os agrotóxicos aplicados nas áreas canavieiras e que possivelmente estão contaminando as frutas, verduras e legumes que consumimos, não conseguimos enxergar. E acrescento mais, as comunidades rurais, compostas por produtores interessados em oferecer alimentos de boa qualidade, também não são vistas por nós. Será que somente voltaremos nossas atenções a esses cidadãos quando um item alimentar faltar em nossas mesas? Ou quando problemas de saúde causados pela contaminação alimentar nos atacar?

Na última década, temos presenciado mudanças importantes no nosso estilo de vida que têm sido conduzidas através da mobilização de pequenos grupos, que geralmente são ignorados, e suas reivindicações abafadas pelo barulho ensurdecedor causado pelo modelo político-econômico capitalista. Em tempos atuais, a conscientização ambiental não deveria ser abordada somente com problemas pertinentes ao local onde vivemos ou de problemas de populações específicas. O modelo de conscientização ecológica amplia a nossa visão do que é o ambiente. Este nos ensina que tudo e todos estão conectados. Logo, os problemas causados pela pulverização aérea de agrotóxicos às populações de pequenos agricultores podem também estar nos afetando. Assim como a prática das queimadas dos canaviais foram erradicadas, a pulverização aérea dos agrotóxicos também deverá ser. Mas isto somente ocorrerá se unirmos numa mobilização conjunta de interesse de participar nessa causa. Nossa opinião como cidadãos conta muito para isso. Busquemos reivindicar nossa escolha de condições de vida melhor as populações rurais, bem como da qualidade dos alimentos que nos servimos diariamente.  Não nos limitemos a pensar que meio ambiente é somente o espaço urbano em que vivemos.   No meio ambiente não existe barreiras. O que afeta a vida do pequeno produtor, também nos afetará.

Ainda há muito que se investigar e discutir sobre o assunto, certamente haverá outras audiências. As divulgações e informações sobre o problema da atividade de pulverização aérea de agrotóxicos devem ser promovidas à população. E nessa causa, nossa opinião e  mobilização valem muito!

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