agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
Blogs Luís Antonio Jornalista e Sociólogo, Luís Antonio integra a equipe do Jornal da Morada, da Rádio Morada do Sol de Araraquara. É formado em Ciências Sociais pela Unesp/Araraquara

O Plano e a hipocrisia

Câmara suprime item que trata de educação em direitos humanos, gênero e diversidade sexual do Plano Municipal de Educação após pressão religiosa
Postado em: 12/06/2015 às 15:09
Autor: Luís Antonio
 O Plano e a hipocrisia

Se pudesse, desenharia. Mas vou tentar ser entendido fazendo o que me permite esse espaço: escrevendo.

Na página 78, o Plano Municipal de Educação, elaborado por representantes legitimamente eleitos pela Secretaria (ou não?), ou seja, pelo Conselho Municipal de Educação, passa a tratar das propostas para EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS. Vou transcrever: “Meta 8: Elevar a escolaridade média da população de 18 (dezoito) a 29 (vinte e nove) anos, de modo a alcançar, no mínimo, 12 (doze) anos de estudo no último ano de vigência deste Plano, para as populações do campo, da região de menor escolaridade no País e dos 25% (vinte e cinco por cento) mais pobres, e igualar a escolaridade média entre negros e não negros declarados à Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE.”

A seguir, define estratégias para cumprir a meta acima. Entre elas, o item 8.8 apresenta que é preciso “assegurar o acesso a materiais didático pedagógicos específicos e diferenciados, contextualizados às realidades socioculturais para professores e alunos, contemplando a educação para as relações étnico-raciais, educação em direitos humanos, gênero e diversidade sexual, educação ambiental, educação fiscal, arte e cultura nas escolas para a educação básica, respeitando os interesses da população urbana e do campo”.

Esse trecho provocou um rebuliço maior do que qualquer indignação sobre a fome na África, a violência urbana, a corrupção ou a falência da educação causaram recentemente.Temas para os quais o Papa Francisco não se cansa de convocar os católicos sobre isso, mas parece que não está sendo atendido. Torço para que ele não desista.  

A polêmica se baseou em uma desinformação – isso é preocupante. O tal artigo 8.8 é absolutamente claro: a meta foi definida como estratégia para o programa de educação de jovens e adultos. Qual a dúvida, senhores e senhoras?

Mesmo assim, 16 (dezesseis) vereadores, de um total de 18, assinaram um documento pedindo a retirada desse item como moeda de troca para aprovação do PME. Se isso partisse do Pastor Raimundo, entenderia, mas até vereadores que se dizem progressistas engrossaram o coro (não é Édio Lopes?). A Edna Martins, cujo atual partido, o PV, ocupa a Assessoria especial de políticas para diversidade sexual, também pediu a retirada do item. Incoerência ou conveniência?

O defensor da família, vereador Buchechinha, disse que meus colegas de trabalho e eu somos mentirosos e que nos falta credibilidade. Credibilidade tem o senhor, que não sabe se apóia o governo ou fica na oposição. Assinou e retirou assinatura de uma CEI, elegeu-se pelo PR, mudou-se para o SDD, não sabe em que galho fica.

Araraquara acaba de assistir um momento claro de oportunismo eleitoral. Talvez não apenas pelo resultado da votação, mas pela forma como as coisas aconteceram. Por mais que alguns defendam legitimamente que a escola não debate tais assuntos, muitos vereadores agiram por mero pragmatismo político e cálculo eleitoral. Afinal, quem toparia criar indisposição com grupos religiosos e perder votos sagrados?

 

Não posso encerrar a discussão sem lançar outras perguntas e considerações:

- Conselho Municipal tem mais ou menos legitimidade do que a Câmara para elaborar o PME?

- A escola deve se omitir sobre a questão de gênero (ou o nome que quiserem dar), fingir que não há gays ou transsexuais dentro e fora de seus muros?

- Alguém pode me explicar o que quis dizer o senhor Sylvio Zabisky Neto, que ocupou a Tribuna da Câmara para se opor ao item 8.8 e soltou a seguinte perola: “a Ideologia de Gênero não seja teoria de defesa dos homossexuais, mas insistiu na destruição da família, que tem amostragem televisiva, pois ninguém sabe quem é o pai do Chaves e da Chiquinha”. (Texto enviado pela assessoria de imprensa do Legislativo).

- Todos os gays, lésbicas, travestis e afins que conheço têm pais, mães, irmãos, primos e quaisquer outros consaguineos, salvo as exceções que se aplicam aos heteros também (ou não tem hetero órfãos ou solteiros?). Não podem, portanto, ser considerados representantes das famílias araraquarenses?  

- Questionaram de modo agressivo as supostas cartilhas sobre o assunto, mas não vejo a mesma indignação contra a ausência de professores, situação muito mais nociva para a educação dos nossos filhos. Também não vi a mesma revolta contra o péssimo material didático oferecido pela rede estadual de ensino (dei aulas muitos anos na rede estadual comprando do meu bolso o livro didático para lecionar, pois as tais cartilhas de Sociologia, Geografia e Filosofia, por exemplo, do governo não chegavam nunca).

- O item 8.8 também tratava de "educação para as relações étnico-raciais, educação em direitos humanos". Tudo isso foi suprimido. E aí, fica por isso mesmo?

 

Para encerrar: a Oração Pela Família foi entoada ao final da sessão pelos que estavam no Plenário e aplaudiram o resultado. A música, de autoria do Padre Zezinho, é um hino ao amor e não deve ser usada pela alimentar o ódio e o preconceito. Para quem, assim como eu, admira a obra dele, recomendo um trecho de outra canção de sua autoria: “Eu sei que a religião também pode enganar/ Não há libertação se eu não me questionar / A vida é uma questão / O amor é uma resposta...”  


Relacionadas

Luís Antonio
Já vi político ser tocado da sacristia
31/10/2017 às 17:37
Luís Antonio
A força da palavra
17/10/2017 às 16:41
Luís Antonio
Moeda de ouro
23/08/2017 às 14:50

Blogs e colunas