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Não romantize o que te fere o peito

"Quanta coragem é preciso para partir! Mas quanta vida não estará presa a alguém que pensamos amar ou amamos solitariamente."
Postado em: 07/08/2017 às 08:00
Autor: Maria Isabel Escarmin
Não romantize o que te fere o peito
Cena de Cinquenta Tons de Cinza/Divulgação

Quando pensamos em relações tóxicas, erroneamente acreditamos que elas são o inverso do amor romântico. A quem interessa, o romantismo trouxe junto dele o pensamento de que o sofrimento faz parte do amor e que o amor só é verdadeiro quando posto à prova, quando traz lágrimas, quando tem uma pitadinha de ciúmes, "ciúmes, o tempero do amor".

O amor romântico trouxe com ele poesias, mas soube remexer na auto-estima dos que amam e, principalmente, dos mais sentimentais ou sensíveis.

Bombardeados por filmes cheios de prova de amor, por desenhos onde o ser amado faz o impossível pelo outro, até mesmo se enveredar por um jardim de espinhos e matar um terrível dragão, introjetamos que o amor só é verdadeiro se traz consigo uma romântica e charmosa gota de tristeza.

Temos um exemplo contemporâneo que causou um boom entre as mulheres e casais: O filme Cinquenta Tons de Cinza.

E não é. E é só isso. Simples assim.

É claro que quando falamos em relacionamento devemos considerar que ali, na comunhão do dia a dia, estão juntas duas pessoas que cultural e socialmente nasceram e cresceram de modo diferente e, então, algumas discussões são inevitáveis e necessárias à saúde do convívio.

A diferença está em aguentar do outro o que não faz parte do amor, mas que a gente, por carência, por costume ou por descuido, acredita que seja e sustenta.

Hoje vejo muitas pessoas vivendo em relacionamentos fracassados, mas acreditando que é assim mesmo, que são falhas humanas, que é preciso ficar por conta do tempo, dos laços familiares, dos filhos... O grande perigo também vem quando a pessoa fica porque acredita que isso é amor.

Um amor abusivo, que trai, que humilha, que mostra indiferença, que faz com que o outro jante só todos os dias, que deixa claro que o relacionamento deve ser do jeito de um, que desconsidera o mundo do outro... Ou até mesmo um relacionamento onde o outro é bom, mas sempre esconde algo, sempre permite um terceiro na relação, sempre se distância "por que precisa".

Estamos acostumados com isso e é exatamente por conta de situações como essa que perigosamente inserimos uma mancha negra no arquétipo amoroso.

Coletivamente estamos permitindo que esse modo doente de amor faça parte de nossa verdade e assim, nos tornamos taciturnos e normalmente tristes.

O mal de nossa geração: Normalizar o que não nos faz bem.

Quanta coragem é preciso para partir! Mas quanta vida não estará presa a alguém que pensamos amar ou amamos solitariamente.

A cegueira emocional faz com que romantizemos as relações tóxicas, cantando para sempre o refrão "que todo amor só é belo se for triste"...

Ninguém merece viver de migalhas e o perigo está em acreditar que o amor é assim mesmo, que somos lutadores e que nos orgulhamos por tentar todos os dias salvar um amor que já morreu.

Não romantize o que te machuca. Tenhamos coragem por um mundo melhor. Vamos quebrar o sapato da Cinderela e calçar os pés na realidade.

Dói, mas não mais do que perder a saúde física e mental e não menos do que perder uma vida inteira vivendo uma mentira embrulhada em verdade.

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