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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Gosto amargo

"De minha parte, sinto-me nocauteado não pela violência e tensão presentes ao longo da trama, mas por algo mais profundo que é representado pela descrença no semblante do agora ex-xerife"
Postado em: 24/01/2018 às 18:12
Autor: Murilo Reis
Gosto amargo
Cena do longa-metragem Onde os Fracos Não Tem Vez/Foto: Divulgação

Segundo Julio Cortázar, o conto, por ser uma narrativa curta, deve arrebatar o leitor, nocauteá-lo como numa luta de boxe - tais palavras, para aqueles que se interessarem, estão no livro Valise de cronópio. A título de exemplificação, histórias nesse “estilo Mike Tyson” são os contos “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca – em que assaltantes invadem uma casa e cometem as mais hediondas barbaridades –, e “Os anões”, de Veronica Stigger – sobre um ataque coletivo contra dois portadores de nanismo. Porém, o leitor nem sempre se dá conta de que foi atingido por algo avassalador. A luta acaba e o juiz determina ter havido nocaute técnico. Os golpes foram todos no limite permitido pela linha da cintura. Não houve aquele cruzado no queixo. Ele está atordoado e não sabe o motivo.

No campo do cinema, é assim que me sinto quando vejo Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Coen. O filme mostra uma caçada sangrenta protagonizada por um bandido inescrupuloso (o caçador Anton Chigurh, interpretado por Javier Bardem) e um veterano de guerra que encontra uma mala cheia de dinheiro proveniente do tráfico de drogas (Llewelyn Moss, a caça, vivido por Josh Brolin). O caso é acompanhado pelo xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), que está às vésperas da aposentadoria. Ele apenas segue o rastro de sangue, pois sabe que o homem por trás daquilo (Chigurh) é alguém muito ruim. No primeiro dia como aposentado, sente-se deslocado. Relata a sua esposa um sonho estranho: uma cavalgada na neve, acompanhado de seu pai, rodeado por uma densa escuridão. Sem que sua narrativa onírica tivesse um desfecho, acordou. Sobem os créditos. O longa termina com o sofrimento no semblante de uma personagem que sabe estar vivendo num mundo maligno. Situação irremediável. De minha parte, sinto-me nocauteado não pela violência e tensão presentes ao longo da trama, mas por algo mais profundo que é representado pela descrença no semblante do agora ex-xerife.

No que diz respeito à literatura, há o caso de “Êxtase” (anteriormente traduzido como “Felicidade”), da neozelandesa Katherine Mansfield. Nele, vemos Bertha Young, jovem que tenta manter tudo que a rodeia em ordem: a casa, o bebê recém-nascido, o casamento, o jardim. A certeza de que está tudo limpo e correto produz em Bertha um sentimento de satisfação. Entretanto, o que Mansfield mostra (ou esconde?), de maneira sutil, são as rachaduras encobertas por uma fachada aparentemente impecável. Por trás da louça polida à perfeição e do impecável jantar servido aos convidados, há medo, inveja, raiva e adultério. Tudo bem. O jardim, com seu centro adornado por uma florida pereira, está em ordem. É o que importa. Quando a leitura do conto termina, estamos em pé, mas atordoados. Não foi um nocaute como aquele chute dado pelo Anderson Silva no Vítor Belfort, algo próximo da sensação proporcionada por “Feliz ano novo” e “Os anões”. Mas sabemos que algo nos atingiu, que alguma coisa está fora do lugar. Há um gosto amargo na boca.

A saber, para quem não sabe: Katherine Mansfield inspirou escritoras do calibre de Virginia Woolf e Clarice Lispector. Para conferir essa influência, sugiro, humildemente, que sejam lidos, depois de “Êxtase”, o romance Mrs Dalloway (Woolf) e o conto “Amor” (Lispector).

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