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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Desde que seja de madrugada, como se fosse no Intercine

"Os pulhas tiram seu sustento de enganar idosos indefesos e balconistas desatentos. Vivem sempre no limite, na tênue linha entre o sucesso e o fracasso"
Postado em: 23/02/2018 às 17:56
Autor: Murilo Reis
Desde que seja de madrugada, como se fosse no Intercine
Nove Rainhas/Divulgação

Há tempos o Intercine deixou de existir. Para quem nasceu com a Netflix e não sabe do que se trata, explico: era uma sessão de filmes para insones transmitida pela Rede Globo; nela, dois títulos eram oferecidos diariamente e os telespectadores votavam naqueles que mais desejavam ver por meio de um 0800 (jurássicos tempos pré-internet). O mais votado, óbvio, ia para a tela. Época distante. Hoje, com o streaming, isso virou balela. Por que esperar algo passar na TV se posso ver o que quiser, na hora em que bem entender? Enfim, podem me chamar de saudosista (ou masoquista), mas, sempre que posso, faço minhas próprias e particulares sessões. A última (que pode ter sido ontem ou há mais de dois dias, dependendo de quando esse texto for publicado) foi com Nove Rainhas, filme argentino com cara de madrugada.

“Cara de madrugada?” Sim.

Não sei explicar em termos técnicos. São longas com enredo e fotografia diretamente proporcionais à televisão e ao período do dia supracitado. Exemplos desses espécimes são Barton Fink, O iluminado, Veludo azul e Cyborg: o dragão do futuro. Histórias diferentes que obedecem (em minha humilde opinião) certo padrão visual e possuem roteiro incompatível com a Sessão da Tarde, por exemplo. Não por serem obras muito cabeçudas (excetuando Veludo azul, talvez), mas pelo fato de despertarem o interesse da audiência naquele momento em que se cogita ir para a cama depois de zapear com o controle remoto por todos os canais.

Voltando à película argentina: com direção de Fabián Bielinsky, trata-se de um conto, basicamente, sobre trapaça. Seus protagonistas são Marcos (Ricardo Darín, sempre ele) e Juan (Gastón Pauls), malandros que escolheram não ter um trabalho com horário e salário fixos. Os pulhas tiram seu sustento de enganar idosos indefesos e balconistas desatentos. Vivem sempre no limite, na tênue linha entre o sucesso e o fracasso. A grande oportunidade de suas carreiras aparece quando um influente político, que tem como hobby colecionar selos, está hospedado em Buenos Aires. A dupla de embusteiros tenta a todo custo vender-lhe uma cópia fiel de um conjunto de estampas raras confeccionadas na antiga República de Weimar: as Nove Rainhas.

Na correria para que o golpe seja concretizado, um elenco de batedores de carteira, vigaristas do carteado e aproveitadores de plantão é apresentado. A capital argentina é o cenário, mas bem poderia ser qualquer grande metrópole. Os ciganos golpistas de Londres representados em Snatch (dirigido por Guy Ritchie) e os trapaceiros soviéticos dos Contos de Odessa (escritos por Isaac Bábel) certamente se entenderiam com os latino-americanos. Ao final, descobrimos que nada é o que parece. Uma trama ainda maior é urdida por baixo do tapete. Em qualquer selva de pedra, só há espaço para experientes e astutos jogadores.

Nove Rainhas é um filmaço para ser visto em qualquer horário. Desde que seja de madrugada, como se fosse no Intercine.

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