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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Apenas uma pergunta

"Se não há resposta para tamanha selvageria, talvez caiba a pergunta feita pela detetive Marge Gunderson (Frances McDormand) no “Fargo” dos irmãos Coen. "
Postado em: 26/11/2018 às 09:42
Autor: Murilo Reis
Apenas uma pergunta
Cena de Fargo

Há muita maldade no mundo.

Depois de ver reportagens sobre o assassinato do jogador Daniel, essa é a única conclusão à qual podemos chegar. É provável que aquele rapaz tenha sofrido muito na mão de seus algozes antes de morrer.

2010 e 2011 foram determinantes para mim. Ainda na graduação, tive como leituras obrigatórias Rubem Fonseca, Raduan Nassar, Ernest Hemingway e Anton Tchékhov. Foi quando assumi de vez a literatura como religião. Desde então, os escritores responsáveis por essa decisão (e outros) habitam meu cotidiano. É a eles que recorro quando me deparo com barbáries sem resposta como as do caso do futebolista.

A Rússia, você sabe, é um país imenso. Essa imensidão é habitada por tipos peculiares, sujeitos totalmente influenciados pelo espaço em que vivem. Nas histórias de Tchékhov, a paisagem não é mero cenário. Ela pode ser protagonista, como na novela “A estepe” (li na excelente tradução de Rubens Figueiredo).

A Wikipédia (de quem sempre devemos duvidar) diz que “estepe é uma formação vegetal de planície com poucas árvores, composta por herbáceas e pequenos bosques” (até que algum especialista no assunto a corrija, acreditarei nessa informação). Em seu relato de viagem, o escritor russo nos mostra a trajetória de Iegóruchka, menino enviado por sua mãe para estudar em outra cidade. Por isso, é obrigado a atravessar a melancólica e desértica imensidão que dá nome ao livro. O guri é conduzido pelo seu tio Ivan e pelo padre Kristofor, que viajam a negócios. Para que possam resolvê-los mais rapidamente, deixam o garoto com uma caravana de mujiques que, apesar de praticamente analfabetos, sabem ler aquela terra plana e monótona como ninguém.

Em dado momento, Dímov, um dos integrantes da trupe, sai da estrada e corre para o meio do pasto. Ele golpeia o chão com um chicote. Descobrem que se tratava de uma inofensiva cobra limpa-campo. Vássia o amaldiçoa, condena sua atitude, exige uma justificativa, um motivo para matar um ser sem veneno, manso. O carrasco apenas ri, sem entender o inconformismo do colega. O velho Pantelei, com a sabedoria de quem já viu muita coisa, diz que não há o que fazer. Dímov bate em tudo o que vê pela frente. Faz parte de seu temperamento.

Por mais inconcebível que possa parecer, talvez essa também seja a natureza daqueles que deram cabo do jogador. Para eles, a vítima foi merecedora de todo o sofrimento físico à qual foi submetida.

Se não há resposta para tamanha selvageria, talvez caiba a pergunta feita pela detetive Marge Gunderson (Frances McDormand) no “Fargo” dos irmãos Coen. Depois de prender Gaear Grimsrud (Peter Stormare) em flagrante, enquanto ele esquartejava seu parceiro Carl Showalter (Steve Buscemi) em uma máquina de cortar lenha, ela faz a pergunta que todos gostaríamos de fazer aos homens que torturaram e mataram Daniel: “Por quê?”.

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