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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Na dúvida, fico com a cerveja

"Groppa e Wellington costumam contar boa história sobre um drinque improvisado que fizeram na formatura do Ensino Médio"
Postado em: 03/05/2019 às 08:37
Autor: Murilo Reis
Na dúvida, fico com a cerveja

“Misturas perigosas”, crônica do Luiz Antonio Simas presente na coletânea >Coisas nossas>, me lembrou que também já presenciei a feitura de boa cota de coquetéis alcoólicos. Afinal, meu pai é dono de um dos mais longevos botecos matonenses.

Nos tempos de moleque, percebia haver misturas mais recorrentes no gosto da freguesia. A maioria delas, imagino, tinha a intenção de atenuar o sabor do elemento principal da composição – ou seja, a pinga. Oncinha era a campeã de solicitações. Para complementar, groselha, menta ou limão. Certa vez, um freguês pediu pela fruta, que, excepcionalmente, estava em falta. Naquele exato momento, um sorveteiro passava pela rua. O cliente pegou aquilo de voleio: comprou um picolé e, satisfeito, mergulhou-o no copo de cachaça.

Em Batatais, o Leite de Macaca feito pela Rosana faz estrondoso sucesso – consequentemente, causa estragos tremendos. Para quem não sabe, trata-se de batida que leva leite de coco e cachaça. Mas a Rô, bruxa que é, faz poção inimitável. Não é só seguir as medidas. Há algo secreto, obscuro na manipulação. Nos rolês, quando sai notícia de que a referida batida está pronta, a correria de copos e canecas desencontrados em busca de um gole que seja é absurda. Já vi gente virando goela abaixo quantidade generosa no próprio recipiente do liquidificador

Groppa e Wellington costumam contar boa história sobre um drinque improvisado que fizeram na formatura do Ensino Médio. No esquenta antes da festa, feito na casa de um dos colegas da turma, a gurizada fez vaquinha e correu ao Extra comprar o que desse de garrafas contendo destilados. Na volta, misturaram tudo num balde. Com ar de sabido, alguém provou e concluiu faltar alguma coisa. Olharam ao redor e viram um saco de ração para cachorro. Pegaram um punhado e jogaram na mistura sem cor definida. O mesmo sabichão que havia detectado a falta de algo bebericou o caldo repaginado e concluiu: “agora, sim”.

Falando em coloração, os corotes com todas as tonalidades do arco-íris que, hoje, são sucesso entre ingressantes na carreira boêmia me remetem ao meu primeiro porre. Acostumado com a doçura do Tang ou do leite gelado com Toddy, não conseguia apreciar o amargor de doses puras. O que fazer? Comprar uma garrafa de Fanta laranja e misturá-la com vodka Balalaika, claro. Desnecessário dizer que passei o clássico mal-estar que obriga todos os bebuns iniciantes a jurarem pela mãe que nunca mais beberão.

No carnaval, acompanhando bloco que descia pela Rua Bento de Abreu, pareei com rapaz que levava um balde de limpeza (alô, Wellington e Groppa, vocês fizeram escola). Olhei o que tinha dentro: coquetel alcoólico azul sabor blueberry. Foi-me oferecido um cálice. Categoricamente, neguei.

Na dúvida, fico sempre com a cerveja.