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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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E se...?

"E se os judeus se rebelassem contra os nazistas? E se um escravo atacasse seus exploradores? E se os hippies de Manson tivessem...? São as perguntas que Tarantino parece fazer e, a partir disso, criar fábulas"
Postado em: 02/09/2019 às 18:10
Autor: Murilo Reis
E se...?

Em resenha sobre Era uma vez em... Hollywood, Inácio Araújo elogiou o que, para ele, é a maior virtude da filmografia de Tarantino: o olhar apurado na composição de cenas. Mas como tirar desse predicativo uma (boa) trama?, questiona o crítico. É justamente aí que o autor de Kill Bill falha, diz Araújo – recontar fatos históricos de outra maneira seria a prova de que o diretor tem pouco (ou nada) a dizer.

Sair de casa para ver um filme de Tarantino é sempre um grande evento. Quando digo isso, não é só porque seus longas me proporcionam algumas horas de diversão. Depois que os créditos sobem, os diálogos e as referências continuam comigo. Ele foi o responsável por dar acabamento ao meu gosto por cinema, cujas bases são fincadas nas sessões televisivas dos anos 1990 (Tela Quente, Sessão da Tarde, Intercine, Domingo Maior). Graças à sua arte, cheguei a histórias de gangsteres da Yakuza em crise existencial (Sonatine), de samurais que buscam vingança (Lady Snowblood), de matadores de aluguel vestidos de terno e gravata (Os assassinos).

Embora sinopses já tenham pululado pela internet, rádio e televisão, talvez seja bom fazer um resumo: Era uma vez em... Hollywood traz a história de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt) – respectivamente, ator de faroestes em decadência e seu dublê, também parceiros na vida real. Paralela às situações vividas em conjunto ou separadamente pelos dois, corre a linha narrativa protagonizada por Sharon Tate (Margot Robbie), que em agosto de 1969 foi assassinada pela seita de Charles Manson. A então esposa do diretor Roman Polanski representaria a nova Hollywood, na qual Dalton não é mais prioridade.

Se eu fosse diretor de cinema, provavelmente faria o mesmo que Tarantino: pequenas homenagens a filmes populares. A relação entre Dalton e Booth, por exemplo, fará bem aos fãs de buddy movies como Máquina Mortífera. Há, também, menção aos spaghetti western, estilo italiano não aceito pelos amantes dos faroestes hollywoodianos.

Nos dois primeiros terços do filme, um Tarantino mais romântico, alguém que sente falta duma época mais analógica. Na reta final, o diretor reconhecido pela violência que nos faz sair da sala de projeção com um riso que mistura bom humor e nervoso.

E aí chegamos ao ponto criticado por Araújo em sua resenha para a Folha. Com todo respeito à opinião do crítico, discordo que seja ruim recriar fatos históricos. Ouvi dizer que, certa vez, José Saramago foi perguntado sobre seu processo criativo, ao que respondeu que iniciava suas histórias com uma pergunta breve e objetiva: “e se...?”. Essa recriação de fatos históricos é discutida em um de seus livros que estão entre meus favoritos, História do cerco de Lisboa, cujo protagonista é um revisor de textos que resolve inserir uma única palavra que mudaria totalmente o passado e o futuro de Portugal.

E se os judeus se rebelassem contra os nazistas? E se um escravo atacasse seus exploradores? E se os hippies de Manson tivessem...? São as perguntas que Tarantino parece fazer e, a partir disso, criar fábulas. Era uma vez em... Hollywood é mais uma delas e mostra que o diretor de Pulp Fiction ainda tem lenha para queimar – combustível que, segundo ele próprio, gerará apenas mais um filme.

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