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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Já não é mais necessário rebobinar a fita

"Hoje, mesmo que você não queira aderir à Netflix ou derivados, há o incrível e quase infinito mundo dos torrents"
Postado em: 18/09/2019 às 17:06
Autor: Murilo Reis
Já não é mais necessário rebobinar a fita

1. Semana passada, Magê Flores e Rodrigo Vizzeu, porta-vozes do podcast “Café da manhã” do jornal Folha de S. Paulo, falavam sobre uma época já esquecida, aquela em que as pessoas alugavam filmes em VHS para ver no fim de semana. Gostei principalmente da lembrança dela – segundo Magê, uma locadora localizada na sua então vizinhança contratou Jorge Ben Jor para fazer o show de inauguração.

2. O programa tinha como tema, claro, as plataformas de streaming ou, para usar outro termo da moda, os serviços on demand – semana passada, esse mercado sofreu certo abalo como o lançamento da Amazon Prime, plano que dá uma série de benefícios a seus usuários por um preço módico. Caso alguém ainda não saiba, já não é mais necessário sofrer daquela ansiedade para conseguir pegar o blockbuster mais disputado por todos os associados de uma videolocadora. Hoje, mesmo que você não queira aderir à Netflix ou derivados, há o incrível e quase infinito mundo dos torrents. Basta um pouco de paciência e boa vontade para baixar em minutos (dependendo da potência do seu sinal de internet) a película desejada, título que, muitas vezes, ainda está em cartaz nos cinemas.

3. No mesmo dia em que ouvi o referido episódio do mencionado podcast, embarquei numa nostálgica conversa com colegas da faculdade durante a pausa para o café de uma disciplina de semiótica cursada às quintas de manhã. Depois de aludir ao conteúdo do programa que havia ouvido no carro a caminho do campus, foi iniciada uma sequência de citações de clássicos da Sessão da Tarde, saída para quem, naquela época, não tinha videocassete em casa. Te pego lá fora talvez tenha sido o título de menção mais celebrada, saga de um garoto jurado de morte pelo bad boy mais mortífero das escolas – todos confessamos ter nos identificado com os perrengues do protagonista, já que também sofríamos com opressões mais ou menos parecidas.

4. Em tempo: à tarde, acabei me lembrando de Os aventureiros do bairro proibido, outro cânone vespertino. Esquecimento quase imperdoável, já que Bacurau, filme mais comentado nas filas de padaria e mesas de bar da atualidade, é fortemente influenciado por John Carpenter. Se nada der errado, espero colocá-lo em pauta na próxima quinta.

5. Mesmo de maneira inconsciente, aderimos ao estilo de vida sob demanda. E não só no que diz respeito aos filmes. O Spotify mudou nosso jeito de ouvir música. Não estou cuspindo no prato em que como, longe disso. Fica para outra hora a discussão sobre a vigilância imposta pelos algoritmos, mas, graças a esse rastreamento, tomei contato com bandas e artistas que dificilmente conheceria sem ter sido fiscalizado pelo aplicativo. Fora que a trilha sonora dos churrascos ficou mais diversificada. Domingo último, por exemplo, fui incumbido de comandar o que saía pelas caixas de som a partir do meu smartphone. Mesmo não conhecendo o gosto de todos os que ali estavam, arrisquei uma sequência de Tim Maia, Jorge Ben, Wilson Simonal, Luiz Melodia e Caetano Veloso, combo praticamente infalível. Modestamente, acho que fui bem-sucedido.

6. Foi mesmo uma semana de nostalgias. Dias antes, no Bar do Mané, conversávamos a respeito do álbum “Sobrevivendo no inferno” dos Racionais, obra que faz parte da lista de leituras para o vestibular da Unicamp. Esse foi um dos poucos CDs originais que tive. Lembro de acompanhar “Capítulo 4, versículo 3” e “Diário de um detento” pelo encarte, sem dividir a atenção com nenhuma outra atividade, experiência que o Spotify, com todas as suas facilidades, não pode proporcionar.

7. Não tive, aliás, a experiência de ver uma apresentação do Jorge Ben, mas também vivenciei a época citada pelos podcasters do primeiro tópico. Desse tempo, me recordo da alegria que era correr à locadora e, ofegante, encontrar na prateleira todos os títulos desejados para o fim de semana. Não é a mesma alegria de maratonar uma série numa madrugada. Era algo diferente, um sentimento que nem a HBO, nem a Netflix e nem a Amazon conseguirão devolver a quem viveu a última década do século passado. Afinal, quando sobem os créditos, já não é mais necessário rebobinar a fita.

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