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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Walter

[...] Walter ainda vê televisão. Não tem celular. Acha difícil ver vídeos, ainda que breves, numa tela tão pequena. O único aparelho que teve caiu na privada. Nunca mais comprou outro
Postado em: 03/10/2019 às 10:42
Autor: Murilo Reis

1. Em pé, com a barriga encostada na ponta do balcão "vermelho Almodóvar", tenho visão privilegiada do que acontece no Bar do Paulo. O boteco é prato cheio para quem gosta de observar o comum, aquilo que não aparece filtrado no Facebook ou na novela das nove.

2. Nesse dia, sábado, escolhi prestar atenção numa conversa conduzida pelo Walter, um dos fregueses mais antigos da birosca. Ele já foi mais frequente. Hoje, marca presença mais ou menos a cada quinze dias. Por muitos anos, Zé Ribeiro, seu falecido pai, foi uma lenda entre os truqueiros que ali jogavam todas as tardes. Dividia o posto com Bernardo, Boca de Bode e Campeão, nomes de respeito na história do truco matonense.

3. Ribeiro, além de ser famoso pelo raciocínio rápido, também era conhecido pelo inseparável boné estampado com a marca do conhaque Presidente e pela bermuda de elástico frouxo que, sempre abaixo da cintura, deixava metade de sua bunda à mostra.

4. Apesar de ter boas noções sobre o funcionamento desse dinâmico jogo, Walter nunca se igualou ao pai. Detentor de boa e enciclopédica memória, sempre correu a conversa de que seu engenho seria deturpado pelo alto consumo de remédios controlados. Não fosse isso, provável que herdaria o posto outrora ocupado por seu genitor, dizem.

5. Nos dias atuais, é raro Walter participar das trucadas. Aliás, depois da morte de boa parte dos mais assíduos jogadores, elas também tornaram-se raras neste botequim. Somente meia dúzia de gatos pingados ainda mantêm o hábito. Muitos dos antigos truqueiros, em idades que vão dos 50 aos 70 anos, foram seduzidos pelos vídeos e notícias falsas compartilhados nos grupos de Whatsapp.

6. Na contramão dessa tendência, Walter ainda vê televisão. Não tem celular. Acha difícil ver vídeos, ainda que breves, numa tela tão pequena. O único aparelho que teve caiu na privada. Nunca mais comprou outro. Naquele sábado frio, discursava para Paulinho, Alemão e Euzébio. O tema da palestra era um desses programas vespertinos de variedades - tentei ouvir o nome ou pelo menos o canal em que é transmitido, mas não consegui.

7. Walter havia visto reportagem sobre um homem que nasceu sem os braços. Na matéria, o sujeito foi mostrado fazendo uma série de atividades cotidianas, todas simples, mas que se tornavam extremamente complexas para quem dispunha somente dos pés. Vê-lo jogando truco foi o que deixou o filho do Zé Ribeiro mais embasbacado.

8. Numa mesa com mais três jogadores, o sujeito, utilizando pés de solas cascudas e rachadas, embaralhava, cortava, distribuía e lançava cartas com destreza, disse Walter. Quando trucava, veias saltadas e voz de trovão, mesmo que fosse blefe, todos corriam - é difícil duvidar de alguém que passou a vida toda sem os braços.

9. Já indo embora, Walter mumurou que aquilo deu até vontade de voltar a participar das jogatinas. Mas nenhum dos seus três espectadores ouviu - todos eles estavam olhando para tela do celular do Paulinho; um novo vídeo tinha sido compartilhado no grupo da família.

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