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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Listas

"A internet trouxe uma série de ferramentas que têm a intenção de tornar nossas sofridas vidas mais fáceis."
Postado em: 26/11/2019 às 16:49
Autor: Murilo Reis
Listas
Imagem ilustrativa

A arte de ser organizado. Invejo quem a domina. Saber o que deve ser feito no decorrer o dia. Não só isso: conseguir realizar todas as tarefas sem se deixar levar por outras distrações. É para isso que existem as listas. O problema: torná-las um hábito.

A internet trouxe uma série de ferramentas que têm a intenção de tornar nossas sofridas vidas mais fáceis. Não sou usuário de nenhum, mas já ouvi falar de aplicativos que te lembram a hora de tomar banho (tudo bem, às vezes eu me esqueço, mas juro que não passa de dois dias). Por outro lado, a digitalização nos entregou listas que servem para nada. Melhor: servem apenas para aumentar nossa ansiedade.

Eu sei que você sabe que estou falando da lista da Netflix. Antes de chegarmos à difícil conclusão de qual filme ver numa tarde chuvosa (muitas vezes, não há conclusão alguma) ou de qual série maratonar num fim de semana de conta bancária zerada, vamos alimentando essa lista com coisas que, naquele momento, não queremos ver, mas, em outra hora, acreditamos que serão úteis. Dias depois, percebemos que já há mais de duzentos títulos na fila de espera e nos damos conta de que nunca teremos tempo para vê-los. O coração dispara.

Nessas horas, sempre bom adotar métodos de listagem mais arcaicos, à base de caneta e papel. O ato de manuscrever pode desaguar em listas de temáticas inusitadas, existenciais, filosóficas. Na crônica intitulada “Brincar de pensar”, Clarice Lispector diz que teceu uma listinha de sentimentos dos quais não sabe o nome. “Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem não se gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama?”. E por aí vai.

Claro, nem todo mundo tem capacidade ou tempo para ser Clarice. As listas foram criadas para serem eficientes, objetivas, práticas. Ainda não conheci arranjo mais competente que o realizado por Beatrix Kiddo, assassina implacável de “Kill Bill” interpretada por Uma Thurman. Numa folha de papel, cinco nomes foram escritos em ordem cronológica de execução. O resultado foram cinco mortes anunciadas. Disciplina e foco.

Há também a enumeração de afazeres escrita por Ricardo Lísias, narrador e protagonista de “Divórcio”, romance de Ricardo Lísias (sim, os nomes de personagem e autor são aos mesmos). Devastado pelo processo de separação conjugal que dá nome ao livro, ele coloca no papel as mais simples atividades cotidianas (pagar a conta de luz, cortar as unhas) com o intuito de retomar as rédeas de sua vida – cerca de um ano depois, está correndo uma São Silvestre.

Recentemente, pude comprovar a força de uma série de necessidades escritas no verso de uma antiga conta de luz. Escrever “ok” à caneta vermelha na frente dos tópicos “corrida noturna de 30 minutos”, “escrever crônica”, “ver um filme bom” e “desativar as redes sociais do celular” me trouxe um sentimento que certamente entraria para a lista da Clarice.

Quem sabe não corro a São Silvestre em 2020?

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