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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Três teorias

"É consenso relativo (pelo menos entre os frequentadores do Bar do Mané): 2019 passou rápido"
Postado em: 24/12/2019 às 18:43
Autor: Murilo Reis
Três teorias
"Num piscar de olhos, absorvemos quantidades industriais de retratos ou pequenos filmes"

Susan Sontag, no ensaio OBJETOS DE MELANCOLIA, escreve que máquinas fotográficas cada vez mais incansáveis mediam a relação entre fotógrafos e o tema fotografado. Para comprovar seu raciocínio, cita o chamariz do comercial da primeira Kodak: “Você aperta o botão, nós fazemos o resto”. A escritora estadunidense teclou essa análise em uma época que ainda não disponibilizava smartphones – o livro que comporta esse e mais cinco outros textos, SOBRE FOTOGRAFIA, foi lançado em 1977.

Talvez ela já estivesse prevendo o que aconteceria anos depois, quando boa parte das pessoas no mundo tem à mão uma câmera digital acoplada a aparelho que também desempenha a função de telefone, dispositivo com o qual é possível fazer inúmeras fotos em poucos segundos. O que realmente não tenho certeza é se a ensaísta sabia que essas facilidades acelerariam o tempo.

É consenso relativo (pelo menos entre os frequentadores do Bar do Mané): 2019 passou rápido. Além da alta velocidade, pareceu conter dez anos em 365 dias. Sou adepto à teoria de que essa sensação é proveniente da quantidade de fatos e fotos que consumimos diariamente. Os minutos correm no mesmo ritmo em que, pulando de uma imagem a outra, deslizamos nossos dedos pelas timelines.

Tomo a ferramenta story do Instagram como exemplo. Num piscar de olhos, absorvemos quantidades industriais de retratos ou pequenos filmes acompanhados de textos, músicas, emojis, o escambau. É possível editar, filtrar, decupar, distorcer, recortar e aplicar efeitos especiais surrealistas com rapidez maior que o tempo necessário para fazer um miojo. O processo de consumo é turbinado por aquela barra que limita a duração de cada cena (é possível pausar seu andamento, mas duvido que alguém o faça).

Tudo isso causa algum efeito? A respeito dessa questão, sou seguidor de outra teoria: essa aceleração temporal não comprovada faz com que percamos a capacidade de analisar os detalhes que nos cercam – e a vida é feita deles. Se perdermos a competência de observar (que é diferente de ver), lá se vai boa parte de nossa humanidade.

O antídoto? Mais uma teoria com a qual simpatizo: ler autoras como Clarice Lispector para voltar a enxergar a realidade e suas Macabéas que circulam por aí diariamente (nas férias, caso tenha tempo, leia A HORA DA ESTRELA). Assistir a filmes de diretores como Noah Baumbach para voltar a perceber que a vida é feita de diálogos sinuosos (durante o recesso, caso surja uma brecha, veja HISTÓRIA DE UM CASAMENTO). Assim como a fotografia, a literatura e o cinema são as artes do fragmento, daquilo que está escondido na algazarra do cotidiano (é mais ou menos o que diz James Wood no volume A COISA MAIS PRÓXIMA DA VIDA).

A todos nós, um 2020 menos acelerado.

P.S.: as teorias aqui expostas foram concebidas durante o ano que se encerra em noites regadas a cerveja, todas ocorridas no estabelecimento comercial mencionado no terceiro parágrafo; são altamente confiáveis, portanto.

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