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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Itens prioritários

"Enquanto estiver tentando aperfeiçoar o design do meu "j" (que se parece um "s"), não me lembrarei que o país está sendo governado por um irresponsável (imbecil?) que ignora recomendações de segurança que visam proteger a população"
Postado em: 16/03/2020 às 10:59
Autor: Murilo Reis
Itens prioritários

Nos últimos dias, com a escalada dos casos confirmados de Coronavirus, a palavra quarentena tem aparecido com mais frequência. Isso me levou a pensar no que faria caso fosse obrigado a ficar em casa vários dias. Depois de ler "Os loucos do papel velho", artigo da Mariana Delfini publicado na revista Quatro Cinco Um deste mês que fala sobre colecionadores de manuscritos valiosos, decidi que me dedicaria à escrita manual, copiando textos de outros autores.

Um amigo (Sérgio) diz que separa 30 minutos diários para escrever com uma caneta Kilométrica de cor preta, da marca Paper Mate. Seu hábito é tão sério que ele tem daqueles cadernos de caligrafia usados nas escolas. Ele afirma que não cria versos, mas apenas copia poemas em francês ou italiano com vagar, caprichando muito na aerodinâmica dos caracteres. São boas sessões de terapia, garante.

No conto "Pierre Menard, autor de Quixote", o protagonista de Jorge Luis Borges decide não apenas imitar a escrita de Cervantes, mas escrever exatamente como o criador do Cavaleiro da Triste Figura. Isolado do resto do mundo, pensei que poderia manuscrever contos e ensaios de outros autores exatamente como Menard faz com relação a capítulos quixotescos.

Eu copiaria, por exemplo, "Os sapatos rotos", de Natalia Ginzburg, saboreando toda a luminosidade de sua linguagem simples e cativante ao falar de assunto tão banal quanto o estado de seus sapatos. Ou o ensaio epistolar "Cara Giulia", de Daniel Arasse, experimentando como é refletir sobre as complexidades que envolvem um quadro de Tintoretto - Marte e Vênus surpreendidos por Vulcano, c. 1550 - de maneira despojada e irônica.

Dedicar-se a essa atividade cada vez mais esquecida e, como mostra o artigo de Mariana Delfini, tão valorizada por colecionadores parece ser boa saída para quem deseja evitar a loucura das redes sociais. Enquanto estiver tentando aperfeiçoar o design do meu "j" (que se parece um "s"), não me lembrarei que o país está sendo governado por um irresponsável (imbecil?) que ignora recomendações de segurança que visam proteger a população. Por isso, junto com o álcool em gel, o caderno de caligrafia tornou-se um item prioritário aqui em casa.

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