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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Fragilidade

"Há uma semana, todos estávamos acumulando e planejando, certos de que nossos propósitos seriam todos cumpridos à risca. A covid19 é o bonde que descarrilha, o dedinho que colide com o pé da mesa às sete da manhã"
Postado em: 24/03/2020 às 12:59
Autor: Murilo Reis
Fragilidade

Atendendo às recomendações de quarentena dadas pelas autoridades de saúde, no sábado, encontrei amigos para uma cerveja via Skype, cada qual em sua casa e com seus próprios engradados. Foi uma experiência inaugural bem produtiva que, pelo andar da carruagem, vai se repetir mais vezes. Afinal, é preciso utilizar a internet para além das redes sociais.

Enquanto participava desse bar virtual, recebi mensagem de um amigo pedindo recomendações de filmes. Poeta do samba que é, finalizou seu breve áudio com bonita e certeira reflexão sobre a pequeneza humana – situações como a que estamos vivendo mostram que somos grãos de areia passíveis de serem aniquilados a qualquer momento.

As palavras desse filósofo batataense da MPB me lembraram duas peças literárias, input que talvez venha a calhar nesse momento em que tantos livros vêm sendo recomendados para que a travessia desse período de isolamento seja mais leve e enriquecedora.

O primeiro escrito que me veio à cabeça foi o mais do que clássico “Amor”, conto de Clarice Lispector que até outro dia habitava a lista de obras para vestibulandos da Unicamp.

Ana é a típica dona de casa da burguesia carioca. Seus dias são tão planejados que ela sabe exatamente a hora em que os móveis serão cobertos por fina e angustiante camada de poeira. Imersa no automatismo cotidiano, algo se rompe dentro dela quando vê um cego mascando chiclete. A imagem desse indivíduo mastigando goma no escuro lhe dá a percepção de que a estrutura da vida é tão ou mais frágil que a casca dos ovos que se rompem dentro de sua sacola e que planos são, muitas vezes, inúteis.

A vulnerabilidade estrutural de nossas bolhas de concreto é um dos temas do ensaio “O filho do homem”, de Natalia Ginzburg, o outro escrito de que me lembrei.

Ali, vemos a escritora italiana refletir sobre a precariedade das paredes que são erguidas para proteger aqueles que residem no seu interior. Tijolos e argamassa, tudo pode vir abaixo num estalar de dedos durante guerras e conflitos. Por trás da aparente solidez das casas, há a fotografia de imóveis desmoronados. Me deu vontade de fazer algumas cópias desse breve manifesto de quatro páginas e distribuí-las a amigos, alunos e familiares, tamanha a clareza e simplicidade com que as ideias são expostas.

Há uma semana, todos estávamos acumulando e planejando, certos de que nossos propósitos seriam todos cumpridos à risca. A covid19 é o bonde que descarrilha, o dedinho que colide com o pé da mesa às sete da manhã, o cego degustando um Trident de hortelã ao meio-dia, o abalo estrutural que nos tira do prumo e nos faz perceber que o único tempo possível é o presente – a solidez de paredes brancas não é garantia de proteção vitalícia.

A mensagem do amigo Raphael e as obras de Lispector e de Ginzburg possuem como ponto de convergência o fato de apontarem para a principal e muitas vezes esquecida característica do ser humano – a fragilidade.

Espero que, nesses dias de isolamento, todos tomemos consciência dela.

Vejam filmes. Leiam. Fiquem em casa.

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