agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
FALE COM O COLUNISTA:

A contemplação do que realmente importa

"Sempre me emociono com a história do aluno que, desempenhando a função de caseiro, era capaz de erguer muros e de consertar qualquer maquinário. Porém, tinha grandes dificuldades com leitura."
Postado em: 12/08/2020 às 16:00
Autor: Murilo Reis

Gostaria de emoldurar certos ensaios e colocá-los na parede da sala. É possível pensar esses textos a partir de reflexão feita por Julio Cortázar em “Alguns aspectos do conto”. O autor de O jogo da amarelinha compara as formas literárias breves à fotografia e escreve que, em ambos os casos, uma partícula da realidade é cingida, fagulha que amplia e transcende o cenário recortado pela câmera ou pelos olhos de quem narra. Assim, tanto o fotógrafo quanto o contista escolhem um acontecimento significativo, a síntese da vida, um momento fugaz e permanente, o tremor da água dentro do cristal.

Morte de um soldado republicano, foto capturada em 1936 por Robert Capa, é um exemplo disso. Ela contém o momento exato no qual um combatente espanhol é baleado. Trata-se da fugacidade mencionada por Cortázar, fração de segundo que, paralisada, recebe inúmeros significados e cujo alcance vai além do homem que desfalece — Capa teve a intuição de pinçar a circunstância concreta em que a vida se encerra.

Em literatura, claro, esse tipo de flagrante é elaborado com mais vagar, a partir da combinação de elementos expressivos de natureza verbal. O depoimento de Rubens Figueiredo publicado em 27 de outubro de 2019, na Folha de S. Paulo, funciona mais ou menos dessa maneira. Nesse relato, o tradutor de Tolstói fala sobre os 30 anos em que atuou como professor de língua portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro.

Sempre me emociono com a história do aluno que, desempenhando a função de caseiro, era capaz de erguer muros e de consertar qualquer maquinário. Porém, tinha grandes dificuldades com leitura. Munido de frases que evoluem sem pressa, Figueiredo narra a trajetória desse herói até o dia em que, aos 35 anos, ele aprende a ler. Assim como Robert Capa, o escritor brasileiro imortalizou momento único, uma grande vitória que estaria ameaçada pelo fechamento do colégio no qual trabalhava e pela consequente interrupção do programa de alfabetização de jovens e adultos.

Outra peça que está na categoria de textos fotográficos é “Inverno em Abruzzo”, de Natalia Ginzburg. Estruturado por sintaxe simples e luminosa, trata do período em que, exilada, a autora italiana viveu com a família no povoado que intitula a narrativa.

Ginzburg relembra quando esteve entre mulheres castigadas pelo trabalho braçal, pessoas que, antes de completarem trinta anos, já dispõem de poucos dentes e muitas cicatrizes. A narradora olha para o passado como se contemplasse um antigo retrato ressignificado pelo presente. Ao dobrar a esquina do último parágrafo, descobrimos ser aquela época similar a um sonho que contrasta com a terrível morte do marido da escritora pelas mãos do nazi-fascismo.

Rubens Figueiredo e Natalia Ginzburg, assim como Robert Capa, detêm a capacidade de congelar o que olhares pouco atentos não percebem. Seus escritos são um convite para a contemplação do que realmente importa. Talvez eu realmente os pendure na parede da sala.

 

Relacionadas

Murilo Reis
A recomendação do professor Celso
03/08/2020 às 16:38
Murilo Reis
Se eu fosse a professora Maria de Lourdes
05/06/2020 às 17:47

Blogs e colunas

Maria Isabel  Escarmin
Maria Isabel Escarmin
Uma nota sobre a solidão
02/10/2017
Guilherme  Quintão
Guilherme Quintão
O terceiro turno de Bolsonaro
30/10/2018
Matheus  Santos
Matheus Santos
Deixo aqui um até breve
10/08/2020
Cristiane Tarcinalli  Moretto Raquieli
Cristiane Tarcinalli Moretto Raquieli
Apoiar, acolher e integrar
18/07/2017
Adalberto Cunha
Adalberto Cunha
O uso do plástico na sociedade atual
22/12/2017
Vaine Luiz Barreira
Vaine Luiz Barreira
Meltdown e Spectre
08/01/2018
Rodrigo Viana
Rodrigo Viana
Ignácio, o imortal
15/03/2019
Marcelo  Bonholi
Marcelo Bonholi
A matemática do medo
30/04/2020