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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Se é que a verdade existe

" Na correria dos dias, a gente faz tanta coisa que acaba esquecendo de muito do que fez e por isso tem a sensação de não ter feito o suficiente"
Postado em: 24/09/2020 às 21:52
Autor: Murilo Reis
Se é que a verdade existe

Outro dia, uma amiga me disse que há tempos não lê um livro inteiro. Confessei que também estou nessa toada. Tenho me dedicado mais a ensaios e contos, a fragmentos de volumes ou de revistas. Me sinto como o leitor que Ricardo Piglia chama de borgeano, aquele que vaga entre inúmeras obras coletando citações que deem sentido a um todo.

Costumo ir anotando os livros que leio no decorrer de cada ano. Na correria dos dias, a gente faz tanta coisa que acaba esquecendo de muito do que fez e por isso tem a sensação de não ter feito o suficiente. Essas listas me ajudam a monitorar a produtividade, a aumentar o sentimento de que o tempo foi bem gasto (ou não).

Nesse vai e vem de páginas em formato físico ou digital e estudando sobre as formas breves, cheguei novamente em “A carta roubada” (1844). Li esse conto de Edgar Allan Poe pela primeira vez em 2011, quando estava no segundo ano de faculdade. Desde então, ele nunca mais saiu do alcance de minhas mãos. Volto até Histórias extraordinárias para encontrá-lo sempre que posso – nunca é demais lembrar que a tradução dessa mais do que clássica coletânea é do José Paulo Paes.

O título talvez seja autoexplicativo: o tema da narrativa é o furto de uma missiva. Seu conteúdo, caso seja revelado, coloca em maus lençóis certos integrantes da classe política de Paris. Entretanto, o que importa não é o que está escrito no documento, mas a investigação conduzida e solucionada por C. A. Dupin, personagem tido como o protótipo de Sherlock Holmes, Hercule Poirot e cia. O narrador é um amigo do protagonista, testemunha que já havia relatado suas proezas intelectuais em “Assassinatos na Rua Morgue” (1841) e “O mistério de Marie Rogêt” (1842). É a partir do ponto de vista desse sujeito sem nome que acompanhamos o raciocínio do detetive até a solução do enigma.

Da boca de um inspetor da polícia, Dupin ouve atentamente os detalhes de buscas realizadas na casa do criminoso. Utilizando equipamentos capazes de adentrar espaços microscópicos, a força policial parisiense demonstra ter muito empenho e pouca imaginação. Essa última característica, como o protagonista assevera, é muito comum em poetas. Por acaso, o autor do roubo é um desses que brincam com as palavras.

A literatura é um jogo em que o escritor organiza seu texto de modo a fazer com que o leitor seja surpreendido. Nessa batalha, é necessário que o escriba saiba como seu receptor pensa, para somente assim conseguir ludibriá-lo. Segundo Dupin, é dessa maneira que o ladrão vence a polícia, pois sabe que ela é meticulosa. Por isso, escolhe um lugar óbvio como esconderijo para o objeto procurado, algo que está à vista de todos. É mais ou menos como fazem as grandes escritoras, os grandes escritores: colocam as palavras todas ao alcance de quem as lê; porém, é preciso olhá-las com atenção para descobrir onde seus verdadeiros significados estão escondidos.

Nesses tempos em que tudo acontece tão rápido e em que é necessário fazer listas para não perder o fio da meada, o detetive de Edgar Allan Poe nos convida a observar as coisas com paciência e distanciamento. Só assim chegaremos à verdade (se é que ela existe).

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