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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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A imagem que fala por si

"Temos um instantâneo que flagra a poesia escondida no emaranhado de fatos do cotidiano. É aquele momento em que nossos olhos, inutilizados pelas repetitivas redes sociais, enxergam algo de genuíno."
Postado em: 03/11/2020 às 18:15
Autor: Murilo Reis

Crônica de Rubem Braga, “O cajueiro” foi assunto de uma aula da qual participei na semana passada. O texto é sobre uma árvore que fez parte da infância do cronista. Por meio de uma carta da irmã, ele fica sabendo que o velho personagem-título não resistiu a um vendaval e finalmente sucumbiu à ação do tempo.

No ensaio “A arte como procedimento”, Victor Chklóvski escreve que manifestações artísticas são pensamentos por imagens. Os objetos revelados por esses retratos podem ser confeccionados de diferentes maneiras, e cada uma delas depende do emprego de recursos expressivos. O formalista russo ressalta que o item pode ser prosaico e visto como poético ou vice-versa. Seu caráter estético depende da maneira como ele é percebido, portanto.

Essa percepção está ligada a procedimentos particulares. Apesar de a descrição ser fundamental para que o leitor da mensagem a entenda artisticamente, vale dizer que ela não deve ser feita de maneira cotidiana, pois, segundo Chklóvski, a finalidade da arte é dar ao objeto status de visão, singularização daquilo que, normalmente, é reconhecido apenas por seu utilitarismo.

Lendo a crônica do Braga, é possível constatar que ele seguiu os artifícios destacados pelo russo e enquadrou a cena em que o cajueiro, já cansado de existir, resolve descansar. O escritor atribui à árvore aspectos humanos ao imaginar que ela, para não atingir a casa onde sua família tinha morado, desviou um pouco para o lado a trajetória da queda. Nesse dia, estava carregada de flores.

Temos um instantâneo que flagra a poesia escondida no emaranhado de fatos do cotidiano. É aquele momento em que nossos olhos, inutilizados pelas repetitivas redes sociais, enxergam algo de genuíno. Na aula em que a crônica foi tema, muitos quiseram torturá-la, fazê-la confessar que escondia algum significado de caráter bíblico ou botânico. Por quê? É mesmo necessário cavoucar o texto em busca de algo mais precioso do que aquilo que já está na sua superfície?

Para mim, a resposta parece óbvia, pois Rubem Braga entrega aos seus leitores uma imagem singular que fala por si.

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