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Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
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Um alerta do espírito literário de Philip K. Dick

"Eduardo tem avaliado a utilidade imediata de alguns volumes - aqueles que já foram lidos e têm pouca chance de serem relidos – e, acima de tudo, a considerar o fator Kindle"
Postado em: 07/07/2017 às 08:39
Autor: Murilo Reis
Um alerta do espírito literário de Philip K. Dick
Imagem ilustrativa

“Não quis mais acumular coisas depois que tive que mudar de casa pela primeira vez”. Quem disse isso foi o Bruno, enquanto bebia cerveja na praça em frente ao Bar do Zinho. Conversava com amigos sobre a dificuldade que encontrava para armazenar livros, gibis, CD’s, DVD’s, revistas e outras coisas em espaços pequenos e o transtorno ainda maior quando essa bagunça tem que ser transportada de um imóvel para outro.

Eduardo – que participava da conversa - sente na pele o que é isso, pois está passando por esse árduo processo.

Começou a colecionar mídias na infância, quando os quadrinhos eram editados em “formatinho” ou formato americano e podiam ser comprados majoritariamente nas bancas de jornal. Mais ou menos no ano de 2010, entrou de vez na era pós-pós-pós-ultramoderna e passou a adquirir livros sob o delírio de promoções e descontos progressivos. Desnecessário dizer que muita tranqueira foi acumulada nesse período – que atire a primeira pedra aquele que nunca deixou um rim no site da Saraiva ou da Amazon, é o que ele sempre diz.

Eduardo tem avaliado a utilidade imediata de alguns volumes - aqueles que já foram lidos e têm pouca chance de serem relidos – e, acima de tudo, a considerar o fator Kindle.

Para quem não sabe do que se trata, o próprio Eduardo explica: Kindle é um leitor de livros digitais desenvolvido pela subsidiária da Amazon, a Lab126, que permite aos usuários comprar, baixar, pesquisar e, principalmente, ler livros digitais, jornais, revistas e outras mídias via rede sem fio.

Em meio a esse dilema, ele resolveu dar mais uma chance aos e-books. No primeiro contato, não tinha gostado muito da ideia de ver a progressão da leitura ser medida em porcentagem. Sentiu falta da numeração de páginas. Ainda acostumado, talvez, a sentir o volume de papel diminuindo na mão direita e aumentando na esquerda.

Fez um teste no último fim de semana. Abasteceu o dispositivo com Angústia, de Graciliano Ramos, Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle, O misterioso caso de Styles, de Agatha Christie, O velho e o mar, de Hemingway e os contos de Alice Munro reunidos em Fugitiva. Ler romances é vital. No entanto, Eduardo sente uma grande necessidade de (pelo menos tentar) ler um conto por dia. Quando viaja, sofre. Qual livro enfiar na mala? Já chegou a levar cinco volumes. Um tipo de suicídio no que diz respeito ao peso da bagagem. E, ler que é bom, quase nada.

Passada a experiência, pôde dizer que ir de Luís da Silva a Sherlock Holmes com alguns cliques foi alucinante. Cansado dos dois, leu a narrativa curta homônima do livro de Munro (sua mais recente e viciante descoberta). A frustração por ter carregado livros que se quer foram folheados não deu as caras – afinal, o formato epub não pesa nada. A porcentagem de páginas lidas é coisa com a qual, depois de um tempo, dá pra conviver - e ler naquela tela é bem agradável.

Em texto publicado na revista Piauí, Pedro Meira Monteiro relata que Ricardo Piglia, ao ser presenteado com um Kindle por seus alunos de doutorado, exclamou: “Uma máquina de ler!” Eduardo fica imaginando o que Philip K. Dick diria a respeito do e-reader.

A convivência com o leitor digital vai indo bem. Porém, ainda há arestas: vez ou outra, uma voz cochicha no seu ouvido a possibilidade de um futuro tão ou mais distópico do que a atual realidade, mundo em que haveria um colapso elétrico que traria de volta a era dos lampiões a querosene.

Talvez seja um alerta do espírito literário de Philip K. Dick para que Eduardo sempre mantenha o essencial dos livros impressos na estante, apesar da evidente utilidade da “máquina de ler”.

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