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Blogs Raphael Pena É jornalista, atualmente responsável pela comunicação do SISMAR – Sindicato dos Servidores Municiais de Araraquara
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As queixas sobre “andarilhos” na Praça do Faveral falam muito sobre quem reclama

Nenhuma lei impede qualquer pessoa de ficar, comer, levar a família, levar colchão, fazer piquenique na praça. Nem há lei que obrigue a tomar banho, falar baixo e manter-se sóbrio
Postado em: 04/09/2018 às 09:15
Autor: Raphael Pena
As queixas sobre “andarilhos” na Praça do Faveral falam muito sobre quem reclama

No Brasil, as pessoas podem fazer tudo que a Lei não proíbe.

Por isso, ninguém pode “retirar” pessoas em situação de rua de lugar nenhum. Elas têm direito de ficar nas praças, ruas, calçadas. Nenhuma lei impede qualquer pessoa de ficar, comer, levar a família na praça, levar colchão, fazer piquenique, assim como quem tem casa também pode usar a praça.

Se eles não produzem nada, isso não é privilegio deles. Rentistas também não produzem nada e não são mal vistos. O problema que ninguém admite é que eles não consomem. Por isso a sociedade não os aceita. Não compram tênis novos, carros, roupas, nem vão comer em food trucks. Não estão se matando de trabalhar. Isso incomoda e muito.

O debate é necessário e carece de muitas respostas.

 

- Tem lei que proíbe sujar a rua ou as praças? Qual é, o que diz, qual a punição prevista? Vale também para quem tem carro de luxo e joga lixo pra fora? O impacto da punição é o mesmo para o rico e para o pobre? Ou quem paga fica bem e quem não tem dinheiro é punido?

- Tem banheiro público suficiente e em condições de uso espalhados pela cidade?

- A cidade deve acolher a todos ou só a quem consome? Ou só quem é cheiroso, asseado e trabalha? Ou só quem tem comprovante de endereço?

- Em qual lei se basear para não permitir que pessoas habitem a praça?

- Qual a diferença das pessoas em situação de rua para os manifestantes que ocuparam por vários dias ou meses tantas praças no Brasil e pelo mundo a fora nos últimos anos?

- Sabia que até outro dia as pessoas em situação de rua não podiam nem usar o SUS por falta de comprovante de endereço? Ainda assim você acha que é mais fácil pedir do que trabalhar?

 

Mesmo com tantas perguntas a serem respondidas, podemos fazer algumas afirmações sobre quem reclama (e me incluo neste grupo):

 

Não cuidamos dos espaços públicos: Passaram os cuidados de praças para o Daae e não funcionou. Não só essa, mas quase todas as praças de Araraquara estão mal cuidadas. Assim como quase tudo que é público é desvalorizado.

Não ocupamos os espaços públicos: A praça já estava abandonada, sem uso pelos moradores dos arredores, antes mesmo dos chamados “andarilhos”, assim como quase todos os espaços públicos da cidade – exceções: o Parque Infantil (central, bem utilizada); há uma semana houve uma atividade cultural na praça do Faveral; e a praça das bandeiras também é bastante utilizada pela comunidade. Todavia, de modo geral, as praças e parques da cidade, principalmente nos bairros, são pouco utilizados pela comunidade.

Não sabemos como tratar dependentes químicos e alcoolistas: Pessoas em situação de rua não perdem sua cidadania, podem usar a praça e têm os mesmos direitos que todos nós. Muitos são alcoolistas, dependentes químicos. Muitos só cansaram da vida (vai saber por quais frustrações e problemas cada um já passou). Podemos impor tratamento? Podemos impor que eles queiram ter emprego e casa e sejam, finalmente, consumidores? Podemos impor que eles voltem para suas famílias? Que lei obriga a isso?

Casa Transitória tem limites e não acolhe a todos: Regras como “não estar bêbado” afastam muitos de lá. Excluem mais um pouco aqueles que já não têm apoio nenhum.

Imposição da ideologia capitalista nos cega: Por que condenamos quem não gosta de trabalhar? Por que achamos que todos precisam querer ter casa, carro, coisas? Qual o problema de não querer trabalhar e conseguir dinheiro pedindo? Quem acha que é cômodo ficar pedindo, em vez de trabalhar, vá lá e fique pedindo, vamos ver como você se sente no frio, na chuva e no sol escaldante. Os tontos, talvez, sejamos nós, que nos matamos de trabalhar para enriquecer outra pessoa.

Não queremos vê-los: mas não nos importamos que eles existam e permaneçam nessas condições indignas fora dos nossos olhos. Se não vemos os “andarilhos”, não nos preocupamos com eles. Se eles incomodam outras pessoas, em outras praças, não nos preocupamos, nem com eles e nem com quem possa estar incomodado com eles. Ninguém está interessado nas suas histórias, em saber o motivo de terem escolhido a dura vida das ruas e não entrar no sistema.