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Esporte
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Alex Viana: Um campeão sem limites

Deficiência visual não impediu o nadador de se tornar um dos grandes nomes do esporte de Araraquara
Postado em: 16/06/2020 às 01:01
Autor: Carlos André de Souza
Alex Viana: Um campeão sem limites
Alex Palhares Viana: "O esporte trouxe tudo o que sou hoje". Fotos: Arquivo pessoal 

Foi na piscina que Alex Palhares Viana descobriu que o esporte pode transpor qualquer limite imposto pela vida. O nadador tem deficiência visual total, originada por um glaucoma congênito de nascença, mas se engana quem pensa que isso o impede de correr atrás de seus sonhos. "Amanhã é muito tarde, temos que começar a correr atrás hoje", resume ele, que tem mais de 300 medalhas, algumas conquistadas em Mundiais e em Parapan.

Hoje com 29 anos de idade, o paratleta possui momentos inesquecíveis que fazem dele um dos grandes nomes do esporte de Araraquara. Professor de educação física, Alex também auxilia deficientes visuais com exercícios físicos, promovendo a eles uma melhor qualidade de vida. Além disso, tenta compartilhar seu conhecimento em palestras que inspiram todas as pessoas que as acompanham.

Em entrevista ao Portal Morada, Alex falou sobre sua trajetória, dificuldades, vitórias e emoções. Confira!


O início

Alex Palhares Viana nasceu no dia 22 de fevereiro de 1991. É filho de Edson Ribeiro Viana e Maria Helena Palhares Viana. Tem um irmão, Matheus, que hoje tem 37 anos e mora nos Estados Unidos. Alex nasceu em Fernandópolis, onde morou até os dois anos de idade, quando se mudou para São Paulo. Veio para Araraquara quando tinha quase quatro anos.

Ele conta que, graças aos seus pais, começou desde cedo a dar valor às coisas simples da vida. "Em São Paulo, a infância foi mais dentro do apartamento, pois é uma cidade que não dava para sair muito. Mas foi muito próximo dos meus pais. A gente sempre teve muita proximidade e eles sempre tiveram o hábito de trazer coisas diferentes para mim, coisas interessantes que eles encontravam na rua. Quando já estávamos em Araraquara, meu pai tinha o costume de correr na pista que vai para Ribeirão e às vezes ele achava um parafuso grande que caía de um caminhão ou coisa assim, e ele trazia para mim. A gente colecionava esses pequenos troféus, que foi uma coisa bem legal", recorda o nadador.

A mudança para a Morada do Sol aconteceu em 1995. "Meu pai era funcionário do banco Banespa e ele sempre era transferido. Então quando mudávamos era por esse motivo. Aí na época ele teve uma transferência e veio trabalhar no Banespa que ficava onde hoje é a Receita Federal na 36", explica. 

Em Araraquara, a família de Alex se uniu a outros pais, adultos com deficiência visual e profissionais da área da saúde para fundar a Para-DV (Associação para o Apoio e Integração do Deficiente Visual), entidade que tem o propósito de buscar meios para que pessoas com deficiência visual recebam orientação e atendimentos especializados para garantir uma vida mais plena e participativa. "Depois que a gente fundou a ONG, eu passei a ter muitos amigos lá também, então fazíamos muita coisa juntos. Sempre tive o costume de brincar muito sozinho, nunca fui muito sociável", relata.


Escola mobilizada

A primeira escola do menino foi a Aldeia, que não existe mais. Ao buscar um local para o ensino primário, Alex e seus pais encontraram dificuldades. "Quando eu fui começar a estudar, as escolas não queriam me aceitar porque eles diziam que não estavam preparados para receber uma pessoa com deficiência. Davam as mais diversas alegações, até que a escola tinha muitas escadas, ou seja, coisas que não iriam influenciar em nada. E o Objetivo me acolheu. Desde pequeno, sempre me ajudaram lá. Chegaram a fazer uma rifa para comprar uma máquina braile para mim. Então desde a primeira série até o terceiro colegial eu estudei lá. Depois fiz educação física na Uniara, onde comecei em 2010 e me formei em 2013. Depois eu fiz uma pós graduação em personal trainer pela Faculdade Passo 1", conta o nadador.


Contato com a natação

Voltando à sua infância, foi na própria Para-DV que Alex teve seu primeiro contato com o esporte que iria marcar sua vida. "Um dos projetos da Para-DV, depois de alguns anos, foi a natação. Começamos uma parceria com o Piscinão, do Santa Angelina. Aí começamos a natação aos sábados para levar o pessoal para praticar uma atividade física, pois todo mundo ficava muito tempo em casa. Eu sempre gostei muito de piscina e logo de cara eu gostei. Aí em 2002 começamos a parceria com a Fundesport", relata.

Com a prática frequente, o menino começou a participar de alguns festivais no Sesc de São Carlos entre 2000 e 2001. Dois anos depois, ele já estava representando Araraquara nas piscinas. "Minha primeira competição séria foi nos Jogos Regionais de 2003, que aconteceu em Sertãozinho. Foi uma expectativa muito grande, eu nem dormi direito, estava morrendo de ansiedade, até porque em 2002 eu não pude ir por causa da idade, tinha 11 anos. E quando fui, foi uma ansiedade muito grande", relembra.

O nadador sorri ao se lembrar daquela competição, que foi um divisor de águas em sua vida. "Eu era disparado o mais novo da competição e tinha um rapaz da minha equipe que nadava muito bem, que era o Antônio Carlos. Tinha também o Expedito de Franca, que era muito bom, então eu sabia que eu brigava pelo bronze. E o cara que iria nadar comigo pelo bronze era enorme, tinha uns dois metros de altura e eu era pequenininho. Ele saía da baliza, eu saía de baixo e não sabia fazer virada olímpica e nada. E mesmo assim consegui ganhar dele. Foi muito legal, dormi com a medalha e foi uma coisa muito bacana", se orgulha o atleta, que no início pendurava suas medalhas em sua cama, para admirá-las antes de dormir. 


Instinto competitivo

Alex Viana conta que sempre foi muito competitivo. "Não gostava de perder nem par ou ímpar. Até hoje não gosto muito. Estou tentando trabalhar isso, mas está meio complicado", brinca o jovem.

Mas a medalha conquistada naqueles Jogos Regionais de 2003 ativou uma vontade de buscar voos mais altos no esporte. Sua determinação nos treinos fez com que sua evolução ocorresse naturalmente. "No ano seguinte eu já fui para uma competição em São Paulo, já tinha melhorado meus tempos, então tudo isso me deu essa ideia de que eu poderia ir mais longe, que eu poderia me dedicar mais. Mas a maior alavanca foi em 2005, quando nadei o meu primeiro Brasileiro e ganhei um 400 livre com uma diferença grande para o segundo colocado, e com isso fui convocado para o meu primeiro Mundial nos Estados Unidos. Isso me fez perceber que tinha alguma coisa diferente e que eu poderia buscar algo mais. Eu fui o mais jovem da equipe que foi para o Mundial e tudo isso foi uma baita motivação para eu pegar mais firme ainda nos treinos", destaca. 

A partir daí, a cabeceira da cama ficou pequena para guardar suas medalhas. Hoje, com 18 anos dedicados à natação, Alex coleciona aproximadamente 330 medalhas e 25 troféus, dentre os quais destacam-se 14 medalhas em Mundiais (nove de ouro, três de pratas e duas de bronzes), uma prata no Campeonato Pan-Americano de 2005 em São Paulo e duas medalhas no Parapan de Toronto em 2015 (uma prata e um bronze). 

Segundo ele, a quantidade de conquistas poderia ser maior se o calendário da paranatação fosse tão ativo quanto é o da natação convencional. "Nós não temos bastante competições ao ano. O convencional às vezes tem duas ou três competições por mês, enquanto nós temos quatro ou cinco no ano. Por isso valorizo muito as medalhas que conquistei, porque elas são muito espaçadas, temos muito poucas competições e isso é uma coisa que poderia melhorar e poderíamos competir mais. Isso é uma coisa que acaba faltando", analisa. 


Momentos de emoção

Alex cita dois momentos como os mais marcantes de sua trajetória. O primeiro foi sua participação no Parapan de Toronto em 2015. "Poder subir no pódio duas vezes foi fenomenal. Escutei o Hino Nacional também, além de estar lá com o pessoal, com aquela energia toda. Foi uma coisa maravilhosa", descreve. 

A outra passagem memorável foi quando conduziu a Tocha Olímpica em 2016 em Araraquara. "Eu fiquei muito feliz quando me escolheram, foi um baita reconhecimento da cidade, mas quando eu estava no ônibus que nos levava ao local de condução da Tocha, parecia que a ficha não tinha caído. Eu pensei que seria tranquilo, mas quando saí do ônibus, com todas aquelas pessoas em volta, aplaudindo, foi uma coisa muito emocionante. É uma coisa fora de série", salienta. 

Alex se arrepende apenas de não ter comprado a Tocha, já que a organização dos Jogos Olímpicos abria essa possibilidade. "Eu deveria ter ficado com ela, acabei não ficando, é uma coisa que talvez eu tivesse feito diferente hoje, mas o que eu vivi naquele dia foi uma coisa que objeto nenhum traz. Essas lembranças são o mais importante de tudo", acrescenta o atleta, que também já havia sido homenageado com a Medalha de Mérito Desportivo pela Câmara Municipal de Araraquara em julho de 2014.


Vida atual

Atualmente, o nadador é casado há três anos com sua esposa Jaqueline. O casal pensa em ter filhos. "Eu gostaria muito de ter uma menina, ela também, mas tanto menino ou menina, com certeza será muito bem vindo e amado", assegura. 

Alex trabalha na Para-DV, onde dá aulas de educação física para pessoas com deficiência visual. "É um trabalho bem legal. É difícil você ver no Brasil lugares que fazem esse tipo de trabalho, não só como o meu, mas no geral. É uma coisa que eu gosto muito e que me deixa extremamente realizado. Eu trabalho de manhã, treino à tarde e também faço musculação à tarde", revela.

Com a pandemia do novo coronavírus, o atleta aderiu ao isolamento social. "Essa situação da pandemia tem sido muito difícil. Eu tenho ficado em casa, me resguardando o máximo possível e tenho saído somente para o essencial. Nos treinamentos, estou fazendo só a parte física. Eu tenho alguns alteres aqui em casa, barra, e tenho feito esse tipo de exercício para não perder o condicionamento porque não dá para descuidar. E o exercício faz muito bem. Se eu não estivesse fazendo nada, eu já teria ficado louco. Não dá para ficar parado, é muito difícil", explica.


Gratidão

Em todas as suas entrevistas, Alex faz questão de agradecer as pessoas que sempre estiveram com ele, como sua esposa, sua família, seus patrocinadores, a Fundesport e ao técnico Alisson Alves da Silva, que o treina há mais de vinte anos. "É muito difícil um atleta que representou uma única cidade em sua carreira toda, ainda mais em uma questão de interior, e eu tenho muito orgulho de dizer que sou um dos poucos atletas que por praticamente vinte anos só representou Araraquara. É uma cidade que me deu muito e eu dei muito por ela também, então a gratidão é muito grande a todas as pessoas que estiveram sempre comigo também", afirma o atleta, que é patrocinado por Serasa Experian, Farmácia Arte e Ciência e Ótica Lupo. Ele se mostra extremamente agradecido pelo fato de, mesmo nessa crise financeira agravada com o coronavírus, seus patrocinadores o procurarem para renovar seus contratos.


O esporte como elemento transformador

Para Alex, o esporte foi o elemento transformador de sua vida. "O esporte significa muito para mim. O esporte trouxe tudo o que sou hoje, tudo o que eu fiz, tudo o que aprendi. Trouxe minha profissão, trouxe minhas mais de 300 medalhas, me trouxe a oportunidade de conhecer vários países, várias culturas e várias pessoas. O esporte me trouxe isso. Além de me ensinar a importância de ganhar, de perder, de trazer essa disciplina toda, me trouxe muitos amigos. Isso é uma coisa que não tem preço e não tem como mensurar", avalia. 

Perguntado sobre qual mensagem daria às crianças que possuem algum tipo de deficiência e que não têm confiança para correr atrás de seus sonhos, Alex expande sua dica. "Minha mensagem não é apenas para as crianças que possuem deficiência, mas as crianças e as pessoas em geral. Uma coisa que sempre falo quando dou palestras é que a questão fundamental é a força de vontade. Não a força de vontade porque sou deficiente ou qualquer coisa assim, porque eu poderia ser deficiente e não estar fazendo nada. Mas é você querer vencer e querer ser alguém. Acho que os nossos sonhos estão nas nossas mãos e só a gente vai poder buscar e só a gente vai poder fazer por onde. Amanhã é muito tarde, temos que começar a correr atrás hoje. Depois podemos nos arrepender do tempo que perdemos e que não pode mais voltar", completa.


Sonhos

Alex relata que durante toda a vida perseguiu o sonho de participar de uma Paralimpíada,  que quase foi possível em 2016, quando ficou muito perto do índice. Hoje, porém, ele se mostra aberto a outros sonhos. "Eu tenho vontade de correr atrás de uma Olimpíada, mas um dos meus sonhos é continuar construindo essa família que eu iniciei e ter a possibilidade de passar o que eu vivi e o que eu aprendi para as pessoas. Isso é uma coisa fundamental, poder saber que você faz a diferença na vida de alguém. Isso é o que eu consigo fazer com meu trabalho na ONG, é o que eu consigo fazer quando dou uma palestra. Eu gosto muito de palestrar e passar para as pessoas a importância da gente correr atrás daquilo que deseja, a importância de tentar ser melhor a cada dia. Então eu acho que fazer a diferença na vida das pessoas de alguma forma é o meu maior sonho hoje", finaliza o nadador.

 

Confira abaixo algumas fotos da vida de Alex Palhares Viana.