agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
  
agora, no ar:
...
...
Blogs Murilo Reis Professor, mestre em Estudos Literários pela Unesp e autor do livro de contos "Identidades secretas"
FALE COM O COLUNISTA:

Beleza no ordinário

"Sontag fala sobre a expectativa criada nas primeiras décadas da fotografia, quando se esperava que fotos bonitas fossem visões idealizadas do pôr do sol."
Postado em: 12/07/2022 às 16:15
Autor: Murilo Reis
Beleza no ordinário

Duas da madrugada. Insone, clico na lupa do Instagram. Pilhas de livros, câmeras analógicas e dribles de Zidane preenchem a tela do celular. No canto inferior direito, vejo uma frase – vive encantado quem vê beleza no ordinário.

A autora do post é fotógrafa. No seu perfil, há registros de casamentos e festas de aniversário. Outro tema recorrente é o café, que aparece em xícaras pequenas e de cores variadas ou dentro de cafeteiras italianas. Legendas que descrevem sentimentos e o valor de certos rituais acompanham as cenas.

Embaixo da lâmpada fraca do abajur, apanho o livro Sobre fotografia, de Susan Sontag. O índice carrega sete títulos. Escolho o segundo deles: “Estados Unidos, visto em fotos, de um ângulo sombrio”. As páginas têm parágrafos grifados e anotações feitas a lápis. Me detenho num trecho em que Sontag fala sobre a expectativa criada nas primeiras décadas da fotografia, quando se esperava que fotos bonitas fossem visões idealizadas do pôr do sol.

Busco em minha memória uma foto de William Klein que, revelada em 1954, mostra três crianças sorridentes. Atrás delas, em pé, um adulto sem rosto, vestindo camisa xadrez. Tem o dobro da altura do trio que ocupa o primeiro plano. Por isso, o recorte decepa sua cabeça. Ainda assim, a mão direita segura um revólver e o apoia contra a têmpora do garoto que está no centro. O menino mantém o corpo virado para a câmera, enquanto a boca se estica e expõe um conjunto de cáries. Os olhos, atraídos pela frieza do aço encostado no crânio, correm para o lado, tentando visualizar a arma.

Vi essa foto pela primeira vez em A câmara clara. Nesse livro, Roland Barthes se ocupa das fotografias que o marcaram. O que chama a atenção do ensaísta francês no instantâneo de Klein são as manchas escuras nos dentes do garoto. Lembro-me também da opinião de um professor, com quem conversei uma vez sobre o mesmo flagrante. Para ele, o que mais impressiona é a atitude das outras crianças – concentradas na lente da máquina, estão alheias ao que ocorre em volta.

Os olhos brancos do menino me desconcertam. A tentativa de ver o 38 posicionado à frente de sua orelha faz desaparecer as pupilas. Resta o tom leitoso do globo ocular. Não é a cor tranquila de um copo de leite e está longe do conforto da imagem de um café fresco descansando em xícara de porcelana. O olhar opaco causado pelo toque da arma funciona como a faixa de luz do fim de tarde que atravessa as cortinas antes do anoitecer.

Olho pela janela. Lá fora, amanhece. Fecho o livro de Sontag e apago a luz.

Relacionadas

Murilo Reis
Livros, espelhos e dízimas periódicas
05/07/2022 às 08:03
Murilo Reis
Na perspectiva de Weronika
10/01/2022 às 09:08
Murilo Reis
Os últimos resquícios do dia
22/06/2021 às 08:07

Blogs e colunas

Luís Antonio
Luís Antonio
Subserviência fardada
24/05/2021
Murilo  Reis
Murilo Reis
Beleza no ordinário
12/07/2022
Maria Isabel  Escarmin
Maria Isabel Escarmin
Uma nota sobre a solidão
02/10/2017
Matheus  Santos
Matheus Santos
Qual o legado de Edinho Silva?
19/01/2021
Cristiane Tarcinalli  Moretto Raquieli
Cristiane Tarcinalli Moretto Raquieli
Apoiar, acolher e integrar
18/07/2017
Adalberto Cunha
Adalberto Cunha
O uso do plástico na sociedade atual
22/12/2017
Vaine Luiz Barreira
Vaine Luiz Barreira
Meltdown e Spectre
08/01/2018
Rodrigo Viana
Rodrigo Viana
Ignácio, o imortal
15/03/2019
Ana Magnani
Ana Magnani
Refletindo sobre invisibilidade
19/02/2021