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Os últimos resquícios do dia

"De acordo com o pai-dos-burros que possuo em casa, genocídio tem ligação com o aniquilamento de seres humanos e com a submissão de pessoas a formas insuportáveis de vida."

No fim de semana em que o país atingiu 500 mil mortes pelo Coronavírus, vejo uma pessoa que foi muito importante para minha formação como leitor compartilhar a seguinte nota no Facebook: “genocida é quem faz o ‘maior carnaval’, esconde medicação, solta criminosos e não deixa o povo trabalhar. Idiota é quem apoia.” Além da citação direta, não havia comentário da autoria de quem fez o compartilhamento, o que me levou a crer que ela endossava o que estava propagando.

Fui até a estante e apanhei o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. O verbete genocida está na página 964 e é relacionado a quem pratica ou ordena genocídio. Logo em seguida, está o substantivo que origina o termo anterior. De acordo com o pai-dos-burros que possuo em casa, genocídio tem ligação com o aniquilamento de seres humanos e com a submissão de pessoas a formas insuportáveis de vida.

Triste, concluí que essa pessoa querida, que foi crucial para que eu me tornasse um acumulador compulsivo de livros, continua apoiando o principal responsável pelo extermínio de meio milhão de vidas. Há coisas que nem todas as bibliotecas do mundo podem explicar.

Procurando esquecer disso, abri o volume de contos escritos por Julio Cortázar entre 1969 e 1983 – recém-lançado pela Companhia das Letras, o calhamaço leva tradução de Josely Vianna Baptista. Passando os olhos pelo índice, escolhi “Apocalipse de Solentiname”.

Narrada pelo protagonista, a história é sobre um escritor que, de passagem pelo arquipélago nicaraguense que vai no título, fotografa camponeses, crianças sorridentes e uma série de pequenas pinturas. De volta para casa, em Paris, ele coloca as imagens reveladas em um projetor de slides do tipo carrossel. Enquanto aciona o dispositivo e confere os resultados, é surpreendido por cenas de violentos assassinatos, fotografias encharcadas de sangue que ele não tinha feito. Trata-se de um evento insólito que sacode as pilastras do cotidiano e que mostra a brutalidade que circunda a América Latina.

Estudioso das formas breves de narrar e interessado no fazer fotográfico, Cortázar sabia como é importante captar momentos decisivos, tanto na literatura quanto nas artes visuais. Levando em consideração as palavras do escritor argentino, acho que o outono é a estação que mais proporciona ocasiões significativas. As luzes dessa época do ano são minhas favoritas, principalmente durante o entardecer. Elas têm uma coloração que lembra a mistura de leite e sangue que escorre pelos versos de “Morte do leiteiro”, do Drummond.

Utilizando uma lente 50 milímetros, tento capturar esses tons da janela do meu quarto, junto com os prédios que compõem possíveis cenários. Seleciono o ISO, ajusto o fotômetro, experimento diferentes ângulos e falho miseravelmente.

Ao mesmo tempo que observo os últimos resquícios do dia, penso no genocida responsável pelo massacre de 500 mil sonhos.

Luis Antônio
Luis Antônio
Jornalista. Formado em Ciências Sociais e Letras pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Mestrando em Estudos Literários. Apresentador e editor do Jornal da Morada, da Rádio Morada FM 98,1
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